O OUTRO LADO DA TELA
Em 1952, ano de produção de “Assim Estava Escrito”(The Bad and the Beautiful), Hollywood experimentava a liberdade com a perda da rigidez do Código Hayes,aquela censura interna que modulava os filmes de forma a proibir, por exemplo, amostragem de cama de casal (Frank Capra levou isso na gozação numa cena do seu “Nada Além de Um Desejo”(Hiding High). O público pedia ousadia e o neo-realismo italiano, paupérrimo, começava a faturar como coisa de rico. A idéia de um filme que criticasse o sistema de produção de Hollywood surgiu quando o roteirista Charles Scheer leu um conto de autoria de George Bradshwa publico na “Ladie’s House Journal” o arremedo norte-americano do nosso, então, “Jornal das Moças” (no fim do ano ganhava status de “Anuário das Senhoras” – como se as moças de todo mês casassem antes de dezembro). Nesse conto o chefão (tycoon) de um grande estúdio pedia para uma atriz, um roteirista e um desenhista de produção que ajudassem um produtor antes de renome e hoje amargando o ostracismo num hotel em Paris. A trinca guarda mágoas desse cara. Dentre muitas sacanagens que ele fez, há um empurrão na mulher do roteirista para os braços de um galã mexicano para deixar o maridão trabalhar em paz. O ato rendeu azar: cai o avião em que o par viajava e o roteirista só permanece trabalhando para o produtor até quando este solta a língua e,brincado, conta que”ainda bem” a madame foi passear com o latino. E também a atriz amarga um romance fortuito que o cara alimentou até quando ela lhe servisse como intérprete. A história deu no roteiro premiado com o Oscar do ano. E no filme que Vicente Minnelli dirigiu com aquele talento que tinha (duvidar é meter o rabo entre as pernas vendo “Sinfonia de Paris”, “Sede de Viver” e “Gigi”). A Metro, que na época era a mais festejada fábrica de sonhos, ousou brincar com o seu umbigo. Walter Pidgeon como o dono da bola, digo do estúdio, seria uma espécie de Irving Thalberg; Lana Turner, a imagem da própria; Dick Powell a lembrança de Faulkner e Kirk Douglas, no papel central, um David O. Selznick, inteligente e ambicioso a provar que essas qualidades é que fazem (ou faziam) cinema classe A. “Assim Estava Escrito”rendeu 5 Oscar e boa renda. Bastou para muita gente seguir a trilha e choveram filmes sobre fazedores de filmes. Um foi radical: “A Grande Chantagem”(The Big Knife) de Robert Aldrich. Neste havia uma cena em que um personagem perguntava:”-Quem faz bom filme aqui ? Stanley Kramer ? “(Kramer era o mais festejado independente, na verdade muito hábil ao dar chance a novos diretores e trabalhar com baixo orçamento). Mas vale a pena rever hoje o filme de Minnelli. Mostra que os deuses das telas não são como os do Olimpo que geraram os super-heróis dos gibis modernos. A gente que lia Cinelândia e Filmelandia não imaginava Lana Turner fazendo cocô. É claro que Minnelli não chegava a tanto, mas tirava da estrela uma aura de impecável em formosura. A maquilagem conseguia o milagre de fazê-la parecer sem maquilagem. E que prazer ver uma chance à Gloria Grahame (Oscar de coadjuvante), grande atriz sempre relegada a papéis de vamp no desvio. Ela e Gilbert Roland dizem que a turma do segundo escalão pesava muito. Sei lá, mas o leão da Metro, a partir daí, passou a urrar diferente. Até que ficou rouco. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 16h11
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Fim de Mundo
Se depender do cinema o planeta Terra já foi pro brejo, ou melhor, pras profundas do espaço. Este “2012” do esperto Roland Emmerich (“Independence Day”) prende-se à ausência de dados no calendário maia pós o ano que não demora a chegar. Daí se passa para boatos de que astros errantes se avizinham do nosso mundo e uma série de fatores, aliados a profecias, indica que em 2012 o Natal terá catástrofes ao invés de chegada do Papai Noel. Emmerich pegou a dica como peixe pega a isca. O seu forte, desta vez, são efeitos especiais que entre outros desastres mostram o Cristo Redentor carioca partido em vários pedaços. Mas eu dizia que o mundo já se foi em cinema muitas e muitas vezes. Vou apelar para a lembrança. De entrada tem “O Fim do Mundo”(When World Collide) de George Pal & Byron Haskin, onde uma estrela se desloca da órbita em direção à Terra puxando um planeta. O planeta passa primeiro rente à nossa atmosfera e gera tudo o que tem direito. Dezenove dias depois a estrela se choca. E o que os homens fazem é contruir uma nova Arca de Noé e viajar para o planeta que ganha uma órbita estacionara no momento em que a estrela se detêm devido ao choque com o nosso mundinho azul. No recente “Presságio” também há fim de mundo. O adivinho (Nicolas Cage) tenta salvar o filho menor posto que a cara-metade não escapa. O filme termina quando ainda tem gente circulando entre os escombros. Em “Impacto Profundo”(Deep Impact) é um meteoro gigante que vai se chocar com a Terra. Não é bem o fim dom planeta, mas de boa parte dele. Impressiona o último plano, da onda gigante chegando à praia onde está a heroína e seu pai. Em “Dr Fantástico”(Dr Strangelove) é o próprio homem que faz do seu”habitat” um canteiro de cogumelos atômicos. Moldado na guerra fria, a comédia de Stanley Kubrick, na linha do drama “Limite de Segurança”(Fail Safe), conta que os russos reivindicam bombardeio nuclear quando um maluco americano manda bombardear Moscou. E a treplica gera os cogus mencionados.Na mesma linha encontram-se “Os Últimos 5”(Five) e “O Diabo, a Carne e o Mundo”(The Devil,the Flesh anda the World), e ainda tem do próprio Roland Emmerich “O Dia Depois de Amanhã”, sem falar no seu filme de estréia (e bom) “O Principio da Arca de Noé”, a lembrar um “Dilúvio” do inicio do cinema sonoro. A NASA está desmentindo o que se revela em “2012”o filme. Aqui no Brasil já se lamenta que, se for verdade a profecia maia, não teremos a Copa do Mundo e as Olimpiadas. É muito azar...
Escrito por Pedro Veriano às 16h15
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Hasta la Vista,Baby
O hoje governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, lançou a frase em espanhol que ficou na cabeça dos que foram ver “O Exterminador do Futuro” das primeiras partes da franquia: “Hasta la vista, baby”. Pois bem, agora, Eric Bana diz isso para Rachel McAdams. Ele é Henry, nascido com a faculdade de se mover no tempo. Ela é Claire, que o conhece em criança quando surgiu no mato perto de sua casa inteiramente nu (pela primeira vez viajar no tempo implica em tirar a roupa). O filme “The Time Traverler’s Wife”, chamado nos paises latinos de “Te Amarei Para Sempre”(conta o fim), é fruto de um romance de Audrey Niffenegger (que eu não conheço), de um roteiro de Bruce Joel Rubin (“Ghost”, “Alucinações do Passado”, “My Life”) e do diretor de “Plano de Vôo”, Robert Schwentke. Esse time joga na cabeça do espectador a história de um livreiro de Chicago que apesar de ser instável no presente, consegue casar e ser pai de uma menina. Esta menina também nasce com o gene de instabilidade temporal. Mas ela ensina ao pai (que não aprende) um modo de não viajar dias afora: “-Cante para ficar”. E a música é “Daisy”, aquela que o computador Hal 9000 canta ai ser desligado pelo astronauta David (Keir Dullea) em “2001, Uma Odisséia no Espaço”. Para as mocinhas que se babaram com Christophe Reeve amando no passado Jane Seymour em “Somewhere in Time”(Em Algum Lugar do Passado), o novo filme procede. Desta vez a mulher não fica enciumada quando o marido viaja. Ela sabe que ele está noutra época, e o que vem de baixo não lhe atinge (difícil ele vir de cima, ou seja, do futuro). Mas no vai-e-vem temporal chega a época em que a morte pede presença. E numa das aparições Henry está ofegante, com uma bala no lombo. A filha sabe que o pai vai morrer. Mas nem ela nem a mãe sabem que ele pode voltar, como de fato volta em campo aberto, ajudado pela paisagem a dizer que o seu amor é eterno. Faltou só uma canção para dar ao filme um lugar no peito das/dos românticas sobreviventes. Stephen Hawkins escreveu que o tempo, como dimensão, é passível de ser percorrido por partículas. H.G.Wells não chutou à toa em “The Time Machine”. Mas nessa idéia de usar o tempo como Cupido eu ainda voto no Tyrone Power de “Jamais te Esquecerei”(The House in the Square), o substituto do avô em certo período da vida deste, conhecendo uma prima (do avô), Ann Blyth, que na sua atualidade (1953) não sabia sequer se havia existido. Quando volta ao seu tempo, o personagem procura indícios da moça (que naturalmente aprendeu a amar). Encontra no cemitério. Ela morrera logo depois que ele a deixou. Este filme, dirigido por Roy Baker, mexeu com a minha memória. Vi 2 vezes, a última no finado Cine Íris(Reduto). Usava o preto e branco no presente e o colorido no passado. Nunca mais vi. Nem em TV, nem em VHS, muito menos em DVD. O romance em “Te Amarei...” fica diluído não só na idéia como-e principalmente-no tratamento dessa idéia. Os tipos ganham com atores bons, mas perdem no fracionamento da ação e nos furos de continuidade. Misturando “sci-fi” e melodrama, resta um híbrido. Tudo bem que é sempre curioso. Mas não emociona. E a emoção é solicitada pelo texto. A mão pesada do diretor é que entornou o caldo. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 16h44
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Sindro de Cotard
Primeiro é preciso que se saiba que diabos é “sinédoque”. Diz-se de uma coisa que se compara a outra, ou que lembre outra. No caso do filme “Sinédoque Nova York”, o personagem principal, Caden Cotard(Philip Seimour Hoffman) faz uma “Big Apple” dentro de um teatro em que ele pretende encenar a “peça de sua vida”. Depois há uma explicação para o nome do herói da história: Cotard, médico francês do século XIX, pesquisou o caso de um cliente que se dizia morto. Por se julgar morto, o homem se sentia em estado de putrefação. Explicando isso se pode entrar no universo do cineasta Charlie Kaufman que, neste novo (2008) filme estréia na direção (antes ele foi apenas roteirista, e brilhante quase sempre, a provar “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”e “Quero Ser John Malkovich’). Primeiro se conhece mr. Cotard. Antes de ele acordar vê-se uma sala escura, um desenho animado passando na TV, e o despertar de um hipocondríaco tipico. Quem conhece um deles sabe como esse tipo de pessoa, ou doente(pode-se dizer), faz a sua manhã. São diversas pílulas aguardando vez para seguirem goela adentro. Mas no caso focalizado, a hipocondria já está sendo contagiosa. A pequena filha de Cotard, chamada Olive (Sadie Goldstein), está impressionada porque o “seu cocô está verde”. A mãe minimiza a impressão. Mas logo o pai dá um grito. Ao se barbear bate no espelho e cai um vidro sobre sua testa produzindo um ferimento. A filha se impressiona com o sangue derramado. No caso, a caminho do hospital onde o pai ganhará alguns pontos na testa, ela diz que “não quer ter sangue”. O medo se define como a aversão à idéia de morrer. E isto passa para os atores no teatro onde Cotard trabalha.A idéia fixa de que a morte é inexorável passa num discurso do encenador para os intérpretes e lembra para o cinéfilo o Woody Allen de tantas vezes, especialmente de “Hannah e Suas Irmãs” quando a fobia de um câncer no cérebro leva o personagem a peregrinar por consultórios médicos e depois, ao ver uma tomografia limpa, festejar na rua para, em seguida, pensar que o diagnostico é prematuro, que “um dia a doença pode ser revelada”. Morte e vida pontuam o filme, mas as primeiras seqüências realistas cedem espaço aos devaneios de Cotard a partir da chance de encenar o que deseja posto que recebeu um prêmio (em dinheiro) por seu trabalho anterior (criticado como um remake de peça antiga). Daí em diante o que acontece no plano real é detalhe de um ensaio para o palco. Sabe-se que a mulher dele, Adele (Catherine Keener), partiu com a filha e sabe-se que ele procurou sexo com a bilheteira Hazel (Samantha Morton) e em seguida com a jovem atriz Claire (Michelle Williams). Também se sabe que procurou a psicóloga Madeleine (Hope Davis), que os pais morreram (primeiro o pai, depois a mãe, de câncer), e que arranjou um ator para fazer o papel principal na peça, na verdade o seu “alter ego”. É interessante que esta mescla de realidade e ficção se une numa pontuação em que uma ajuda à outra. Por exemplo, a casa que Hazel compra está sempre em chamas. Ninguém se importa com isso e até a corretora fala de incêndio como uma hipótese viável a qualquer morador. O fogo marcaria a mulher sensual que depois se junta a um outro tipo – e ainda se vê novamente só, no processo de tempo que se usa na feitura de peça e que apenas sintetiza a realidade (Cotard não envelhece tanto na vida como envelhece no palco). Vendo o filme, e numa primeira vez certamente perdendo-se no labirinto de informações sobre o que se passa na mente do autor, a gente pensa que, perto do final, Kaufmann sai do esquema felliniano (há muito de “Oito e Meio” de Fellini) e põe um corifeu a “contar” o que se passa. Mas o filme não termina aí, desmentindo a totalidade da síntese falada. Há mais planos, como os da mulher cadavérica que mora no edifício para onde se refugiou Adele e vive dando um recado dela, como, e finalmente, o “velho” Cotard reencontrando Hazel (que pouco envelhece) e pedindo licença para botar a cabeça em seu colo. Esta conformação no carinho que não conservou em tempo hábil poderia fazer cair a cortina. Mas não se faz um recurso teatral para encerrar um processo de linguagem muito mais cinematográfico. O plano médio do casal (Cotard e Hazel) vai esmaecendo (fade in) e a tela ficando totalmente branca para receber os créditos finais. Charlie Kaufman já se sabia ser um dos mais criativos roteiristas do cinema moderno. Agora também diretor. Um atestado de maturidade em um filme difícil que tenta ver dentro de uma pessoa até com efeito mimético. Seria aquele “raio-X da alma” que tanta gente quis fazer. Palmas à tentativa (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 10h26
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Antes de Parar De Vez
Em 1986 o Cine Clube APCC estava cansado. O auditório do Curso de Odontologia da UFPA deixava a Praça Batista Campos. O projetor do Grêmio Português já não era mais o grande presente do ditador Oliveira Salazar aos patrícios de Belém. E o Cine Guajará da Base Naval mostrava-se distante com as crateras da estrada e as invasões do caminho. Além disso, já existiam os cinemas 1 e 2, frutos dessa experiência cineclubista. Emoldurando o quadro, inaugurava-se o Centur e com ele um “cinema de arte” apto a exibir filmes em 35mm e 16mm. Eu saí da Secretaria de Saúde, onde, na época dirigia um posto médico depois de 9 anos atendendo a “freguesia”do Presídio S. José, guinado à Secretaria de Cultura. O amigo Acyr Castro, de quem herdei minha primeira coluna de cinema em “A Província do Pará”, chamou-me para programar o cinema que estava sendo construído na prometida Fundação Cultural (que o governo Jader Barbalho chamaria de Fundação Tancredo Neves em homenagem ao presidente de vôo curto que marcou a redemocratização do país). A coisa demorou um pouco e quem acabou me nomeando para o cargo foi outro amigo, João de Jesus Paes Loureiro, secretário que substituiu o Acyr quando mudou o governo do Estado. O primeiro filme que exibi ali foi, por coincidência, um documentário sobre Tancredo(“Céu Aberto”). Depois tentei as distribuidoras. O aval era o cine-clube, que pagava fatura antes de chegar o documento. Mesmo assim, cedi espaço às embaixadas. Surgiram festivais russo, finlandês, tcheco, sei mais de onde. Era gratificante: pagava os filmes em borderô a 40 % da renda, o que permitia uma independência ao cinema. Mas a festa não demorou. Veio uma ordem para depositar a renda da bilheteria na instituição e se pagar faturas como despesas da casa. Isto queria dizer que um documento passaria por várias carteiras, vários carimbos, vários dias até ser quitado. E as distribuidoras não toleravam pagamento atrasado em mais de 15 dias. Minha luta era contentar essa mecânica da exibição. Ia conseguindo, até que outro secretário achou por bem dar mais espaço ás exibições teatrais. Programavam peças e shows sem me informarem. Chegavam filmes sem que se pudesse exibi-los. Reclamei. Não adiantou. Saí. E fiz bem pois já tinha tempo na Secretaria de Saúde para me aposentar. Depois de mim houve um hiato. E ressurgiu o cinema no Libero (afinal criado até no nome para ser cinema) com gente jovem como Mariano Klautau e Dedé Mesquita. O problema nesse tempo todo era projeçãom deficiente por conta dos péssimos projetores adquiridos na inauguração. E uma estrutura precária da sala, com uma tela pândega. Depois tudo se arrumou. Surgiu um projetor muito bom, comprou-se até um datashow para projeção de DVD com qualidade, e o cinema subiu orientado pelo José Augusto Pacheco. Hoje, para minha surpresa, uma parada circulatória. Fechou-se a casa para manutenção. Explica-se: desde o meu tempo o projecionista Carlos Lobo tratava da maquinaria. Fazia milagres nas engrenagens velhas e bateu palmas às novas. Era desses técnicos parecidos com os que são maníacos por carros e vivem limpando o bicho todos os dias. Pois o Carlos, que não chega a ser nem funcionário interino da linha que se conhece, deixou a raia. Não receberia nem por serviços prestados. Resultado: a cabine ficou nas mãos dos rapazes que sabem botar o rolo de filme no aparelho, mas não sabem das manhas desse aparelho. Pacheco achou que seria melhor parar do que ver um desastre, ou seja, a destruição de maquina cara por falta de quem saiba tratá-la. E agora? Técnico de projetores cinematográficos é figurinha difícil na Belém de hoje. Antes, com Severiano Ribeiro dominando o mercado, tinha Baltazar Pimentel, um “bruxo” que botava para virar até projetor capenga como alguns do subúrbio e do interior que ele atendia a pedidos. O Carlos Lobo veio na geração do Manoel, que foi aluno do Baltazar e funcionava nos cinemas 1, 2 e mais tarde 3, Docas 1 e 2 e Castanheira 1 e 2 (salas do amigo Alexandrino Moreira, um maluco por cinema como eu). Sem respaldo do poder público, o cineminha do Centur está em compasso de espera. Até quando? Sabe-se que máquina parada é máquina avariada. Esse tom persegue a música que ora se toca na área da programação cinematográfica alternativa da cidade. Lamento bastante o que está acontecendo. Como penso que não sairia muito dispendioso achar um doutor para a doença da máquina. Apesar de ser uma especialidade rara, há quem possa assumi-la. Falta um pouquinho de boa vontade da Fundação Cultural, diga-se Secretaria de Cultura, diga-se Governo do Estado. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 15h04
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Cinema Alternativo em Perigo
Sábado passado fui ao Cine Libero Luxardo(Centur) desejoso de ver o filme premiado (e de estréia) ao ator-cineasta Matheus Natchergaele: “A Festa da Menina Morta”. Quando ia entrando com o meu querido fusca na garagem do prédio um funcionário, delicadamente, perguntou-me se eu ia para o cinema. Disse que sim. E ele disse que não. O cinema estava suspenso por conta de um desarranjo no projetor. Não é a primeira vez que isto acontece. Penso que no meu caso é a terceira. O cinema alternativo, especialmente o que á alimentado pelo poder publico, é de extrema fragilidade.Quando poderia ser o contrário: o mais forte, ganhando gordura com o subsidio. Soube depois do que estava (ou está) acontecendo. O projetor do Libero, um dos melhores de Belém, está precisando de manutenção. Pequenos estremecimentos indicam que a máquina pode quebrar a qualquer momento. Peças como a cruz de malta indicam o fim do aparelho, pois são tão caras que pedem um novo. A melhor opção é parar antes que tudo se acabe. E agora a parte tragicômica da historia: o Centur tinha, no meu tempo de programador do cinema de lá, um senhor técnico: o Carlos Lobo.Ele se formou ali, aprendendo num projetor ruim, colocado no espaço não se sabe como, pois até o Secretário de Cultura da época, Acyr Castro, espantou-se quando foi visitar o esqueleto do cinema (ia ser inaugurado dentro em breve) e deparou com a maquinaria em fase de instalação. Manejar esse “Hercules” (nome do projetor) era, de fato, uma tarefa hercúlea. Mas o Carlos dava conta. E deu, depois,com as mudanças para melhor. Hoje conhecia a cabine da sala como sua própria casa. Não precisava ir buscar técnico na conchichina para endireitar um pequeno defeito. Acontece que o Carlos não fez concurso para funcionário (sua categoria não existe em editais) e, como interino, saiu da folha de pagamento da instituição. Contratá-lo por serviços prestados seria a formula. E assim foi feito até recentemente. Agora não tem disso. Não se paga mais uma pessoa que saiba tratar de projetores. Eles que se lixem. E aí? Como vai ficar o Libero? Do lado da Prefeitura (o Centur é por conta do governo do Estado), há outro prisma surrealista. O senhor prefeito não quer que se cobre ingresso do cinema Olympia, a casa quase centenária que ele, justiça seja feita, salvou da vontade do dono do prédio (ainda esperando ser tombado) em tirá-la do mapa. Mas se o salão serve para “n” coisas, a parte de cinema fica devendo ao DVD projetado e aos filmes de embaixadas que cedam cópias em 35 mm. Com outro agravante: essas cópias, obviamente, chegam do sul por via área. Carecem de pagamento de frete. E a PMB não paga isso. Então quem paga? Por outro lado, o “datashow” ou projetor de DVD, é muito precário (estava no Memorial dos Povos). Para o espaço seria necessário um que tenha no mínimo 6 a 8 mil lumens (brilho). O que projeta discos, atualmente, deixa sombras na telona, exigindo que se exiba preferencialmente títulos em preto e branco, pois o colorido esmaece de tal forma que se vê apenas...fantasmas. O Olympia podia ter uma renda (com ingresso como o Libero, a 5 reais, e além disso, bomboniére terceirizada, que desse uma ajuda à boa vontade do prefeito). De graça precisa de verba para manter uma boa programação. O Cine Estação, que é também do Estado, passou a fazer apenas um programa de cinema por mês no Teatro Maria Sylvia Nunes. Antes eram 3 programas. Uma pena, pois o espaço e o projetor convidam, especialmente em sessões que Belém perdeu como a matinal de domingo. Quem ainda programa filmes para os cinemas subvencionados é gente que entende do assunto. O contacto com as distribuidoras de filmes existe e é feito com o necessário conhecimento dos produtos (quem não sabe come gato por lebre). Se o poder público olhasse um pouquinho mais para esses espaços a platéia estaria de parabéns. Cinema “de arte” não é artigo de luxo como alguns pensam. É apêndice do ensino, da cultura, do que se faz em escolas. Formar platéia para bons filmes é educar. Portanto, gastar dinheiro com cinema não é jogar fora. Mesmo, nos casos em pauta, é salvar patrimônio. Deixar as coisas flutuarem sem uma bóia é antever naufrágio. E depois do naufrágio haja dinheiro para fazer outros barcos. (Pedro Veriano).
Escrito por Pedro Veriano às 09h34
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Pelo Nome
Quem vê filme pelo nome ri antes de ver “Se Beber Não Case”. Melhor seria, segundo o argumento, “Aperte a calcinha, o noivo sumiu”. Mas deixem pra lá. Há títulos brasileiros hilários embora se diga que em Portugal se chama pior alguns filmes norte-americanos. Exemplos: “Os Reis do Ie Ie Ie” para “A Hard’s Day Night”(podia ser na gíria da época “Dia e Noite de Lascar”) passou em Portugal como “Os 4 Cabeleiras di Após-Calipso”, brincadeira com os Beattles ligando a turma de Liverpool com os personagens do último livro da Bíblia. Pior, talvez, “M, O Vampiro de Dusseldorf” virar simplesmente “Matou!”. Há uma piada que diz ter o “Psicose” de Hitchcock virado em Lisboa como “O Filho que Era Mãe”. Não foi assim (lá foi “Psico”), mas aqui no Brasil também se finais com “O Diabo Disse Não” para “Heaven Can Wait”(tinha outro “O Céu Pode Esperar” daí a mudança). E que dizer de “O Marido é o Culpado” para “Sabotage” o filme inglês de Hitchcock ? A “Malta Selvagem” virar “Meu Ódio Será Tua Herança” é o raio-x da imbecilidade.Também “Leap of Faith”(Um Salto de Fé) chamar-se “Fé Demais Não Cheira Bem” ou “O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra” para “Parenthood”(Aparentados). Mas os tradutores acham que possuem razões que a razão desconhece. Qualquer dia batizam qualquer coisa de “A Volta dos que Não Foram”. No caso de “Passageiros”, o filme de fantasmas que por aqui só saiu em vídeo, até que vale: os tipos não viveram seus papeis: morreram antes.(Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 16h08
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O Monstro e o Principe
Era uma vez um monstro; Tímido e triste (como os tímidos geralmente são) tinha vergonha de fazer as suas monstruosidades e mesmo de mostrar-se em público. Um dia surgiu-lhe pela frente um príncipe encantado. Tão encantado que perdera o rumo de sua eleita dorminhoca, de seu plano b que perdera um pé de sapato ou de uma anêmica à beira da cova por ter recorrido à maçã edênica. O monstro ao ver o príncipe se acautelou, meteu a cabeça na casca e ficou esperando o encanto passar. Mas o príncipe estava numa fossa cavalheira e ao ver o monstro sentiu que seria melhor se assim fosse, um ogro transmitido pela televisão. Foi feita uma proposta de troca com o aval dos fabulistas. O monstro, na sua timidez imutável, recusou. Preferia continuar monstro. E acabou ganhando, pois virou artista de cinema, ganhou a sua princesa, e virou pai de pelo menos três monstrinhos assanhados. O nome dele: Shrek. O nome do príncipe: Nico.
Escrito por Pedro Veriano às 10h49
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Durango Kid Rides Again
Nos 50 eram populares os filmes C com Charles Starret vivendo o mocinho mascarado Durango Kid. Não era uma mascara como a do Fantasma ou do Homem Aranha. E em se tratando de western nem mesmo a do Lone Ranger que entre nós ganha o nome de Zorro, xará do herói latino que no cinema foi Douglas Fairbanks, Tyrone Power e agora Antonio Banderas. Os faroestes do Durango Kid faziam as matinais e vesperais dos finados cinemas Iracema e Poeira, espaços grandes da Belém menos populosa e muito menos violenta. Eram tão vistos que um opositor do amigo político Raimundo Noleto, o Noletinho com seus poucos mais de meio metro de altura, chamou-o uma vez desse nome e o destinatário não entendeu (não via os filmes) e pensou que se chamasse Durange. Eu corrigi na resposta. Mas não escrevo para dizer que os filmes do DK, todos da Columbia Pictures, saiaram agora em DVD ou coisa que valha. Escrevo pensando que assim como agora o povo ordeiro vive atrás de grades e os bandidos ao ar livre, o mesmo povo anda de máscara na cara, tal qual o Durango, com medo da gripe. Viramos heróis de faroeste presos. Outra novidade dos tempos modernos a rivalizar com os telefonemas visuais onde se fala com parentes e amigos lá da caixa prego vendo-os (e eles nos vendo). Quero dizer: imitamos Flash Gordon também. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 10h23
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Estréia Quente Sobre o Gelo
“Rio Gelado”(Frozen River) trata de duas mulheres, uma branca, uma índia, ambas fadadas a atravessar um rio congelado na fronteira dos EUA com o Canadá, para ganhar a vida contrabandeando imigrantes. Cantar que “esse rio é minha rua” cabe, dessa forma, mais que a melodia sugere. É a vida da esposa abandonada pelo marido e da índia mohwan obrigada a entregar o único filho, bebê, para a sogra criar já que não tem condições financeiras para tanto. Viver do crime seria a única forma dessas pessoas suportarem a barra do cotidiano. A mulher branca, Ray (Melissa Leo, excelente), precisa de uma renda que permita até mesmo dar comida aos dois filhos, um de 13 outro de 5 anos. O que ela ganha numa loja não dá além do cardápio de pipoca e da fração mínima de combustível para o carro(e ela precisa dele). A índia Lilá (Lilá Littlewolf), que se transforma em melhor amiga, contata com os veículos da imigração ilegal. Não ganha de outra fonte. E se há sonho para as duas, uma casa é para a primeira, e viver ao lado do filho para a segunda. A história que virou roteiro da diretora Courtney Hunt, chega ao Natal e mostra uma nova abordagem da festa cristã. Há uma árvore em casa de Ray, mas não há muito enfeite nem a presença paterna e materna na noite de 24 de dezembro. O pai sumiu, a mãe está presa pelo que faz para ganhar um mínimo de liberdade. É assim, cheio de contrastes, de divergências do modelo edificado ano a fio por Hollywood, que o filme caminha em dinâmica narração. Nada de clichês, nem mesmo a imagem do Natal de “jingle bells” acalentado no cinema tradicional. Eu gosto de cinema desse jeito: objetivo (diz o que quer dizer e faz-se entender o tempo todo), bem trabalhado (não falta nada, da fotografia aos atores), dosando os sentimentos sem apagá-los. É o avesso da explosão erudita de alguns cineastas que reforçam a idéia de que “filme de arte” é aquilo que só os críticos entendem. Courtney Hunt estreou em 2008 com este rio (filmado em 2007) muitas vezes premiado. Só agora ela está saindo para um novo projeto. Sempre escrevendo o que vai filmar. É aquilo que se chama “cinema de autor”, coisa que a industria detesta embora use o nome do diretor de porta-estandarte para os seus espetáculos vistosos, mas vazios. Sim: o rio por onde as mulheres transitam para levar a sua muamba humana é o que o inverno canadense propicia (dá até -16 graus). Ver esse trajeto como uma metáfora da vida das personagens não é forçar a barra. Mas nem o grande plano do chão de gelo vale como tradução de sentimentos como a cara de Melisa Leo em close enxugando lágrimas. Ela perdeu o Oscar para Kate Winslet. Gosto muito de Kate, mas, sei lá, talvez votasse em Melisa se fosse do júri. Aqui, na aferição de fim de ano da ACCPA, ela vai brigar com aquela soprano que fez Alexandra, a personagem do filme que leva esse nome dirigido por Aleksander Sokurov. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 14h24
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No Mundo da Lua
Gostar de cinema é uma forma de se ingressar no mundo da lua. Mais do que a literatura, desde que se considere o ritual da sala escura e a tela iluminada, o cinema faz a vez de uma janela para a fantasia que cada um de nós guarda nos hemisférios cerebrais. Mas o caso, agora, não é o mundo da lua de onde se derivou o termo lunático. É o velho satélite natural da Terra, o disco branco dos namorados, o despertador de tantas lendas, o atiçador das marés e uma espécie de sala de espera das viagens espaciais. Se o homem botou os pés na lua em 1969, o cinema fez a viagem em 1902. George Meliés foi o cineasta gaiato que atirou uma bala de canhão na “cara de lua” e botou seus astronautas à vontade, sem dar bola para o aspecto físico de uma viagem desse tipo, fugindo de monstrinhos que pareciam ter fugido de um teatro de marionetes e selenitas divididas entre deusas de cromos e fantasmagorias de assustar bebê chorão. Vendo um francês na lua os alemães pré-nazistas mandaram o seu através de Fritz Lang(“A Mulher na Lua”).E os soviéticos exageraram:foram à Marte (“Aelita”). Nada a sério, ou pretensamente a sério, até que George Pal deixasse os seus bonecos (puppetoons) e ingressassem na ficção-cientifica com “Destino à Lua”(Destination Moon/1949) dirigido por Irving Pichel. Ali introduzia o jato que era esquecido de William Cameron Menzies & H. G. Wells no “Daqui a Cem Anos”(Things to Come) onde um foguete interplanetário só aconteceria em 2036 (antes os aviões tinham até tombadilho como os transatlânticos e eram movidos a pistão). Só não pensava nos estágios propulsores. Um arremedo de V-2, a bomba de Von Braun, ia direto da Terra à Lua e deixava por lá, devido a excesso de peso e falta de combustível, um tripulante (creio que o comediante Dick Wesson). As mais importantes viagens à lua através do cinema foram, além do filme de Pal & Pichel, “Da Terra à Lua”(Rocketship XM/1950) de Kurt Neumann, onde a nave destinada ao satélite migrava para Marte sem mais delongas; “Os Primeiros Homens na Lua” (First Men on the Moon/1962) de Nathan Juran, apoiado no texto de Jules Verne; “No Assombroso Mundo da Lua” (Countdawn/1968) de Robert Altman; “2001, Uma Odisséia no Espaço”(200l, a Space Odissey/1968) de Stanley Kubrick; “Apollo l3”(1995) de Ron Howard e “Cow Boys do Espaço”(Space Cowboys/2000) de Clint Eastwood. Posso ter esquecido alguma coisa, mas até dos sci-fi vira-latas eu gostava e ia ao cinema quando anunciados. Só não gostei do que fizeram com o melhor dos quadrinhos: o seriado“Brick Bradford”(1948) de Spencer Bennett e Thomas Carr, onde a imaginosa história da viagem à lua pela “Porta de Cristal” passou por um passeio indigno de Mèliés. Claro que já se filmou realmente na lua. Há quem ache que tudo foi feito em “sets”, mesmo as viagens pós Apollo 11. Não sou Tomé, sou Pedro. Só não creio que Armstrong tenha bolado aquela frase na hora de descer a escada. Ele já devia estar com o texto decorado. Se estava, mesmo experimentando o solo lunar o medo é que devia falar por ele. Melhor o que disse “Buzz” Aldrin, o companheiro de viagem: “-É um lugar muito feio” (ou “that’an ugly place”). Por sinal que há cenas de Armstrong e Aldrin juntos, andando no Mar da Tranqüilidade (lua) e não se diz quem filmou. Ah sim: eu fui ao Theatro de Paz ver a “pedra da lua” em exposição. Lembrei do romance de Otto Will Gail. Se aquilo era pedra de Utah, ou do Arizona, entrei bem. Quem dá em viver no mundo da lua...(Pedro Veriano).
Escrito por Pedro Veriano às 16h23
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Kinemandara
Vicente Cecim voltou a filmar. Seus dvds “Fonte dos que Dormem” e “A Lua é o Sol” trazem peculiaridades não encontradas em nenhum exemplo de cinema. Não vejo nada semelhante nem mesmo nos clássicos surrealistas. Citando que são “Kinemandara”, ou seja, Cinema de Andara, a terra do intimo do autor, mais do que uma Shangri-ka ou Passárgada, ele tenta se expor da forma que lhe chegam as idéias. O máximo que se pode concluir de uma temática é a frase que pesca de Franz Kafka: “Por impaciência perdemos o paraíso”, e, a seguir, “por impaciência não voltamos ao paraíso”. Escrevendo as frases, “A Lua é o Sol” pontua com uma visão panorâmica da cidade atrás de grades. Em seguida, em stopmotion, pessoas andando para uma parada de ônibus em uma praça. Não se queira identificar coisa alguma, embora se possa. As “silhuetas na paisagem” evocam o que disse Joseph Losey. E os filmes divagam por imagens paradas que devem dizer a Cecim muito de sua sensibilidade exuberante. O cinema introspectivo é aquilo que Jean Cocteau falou: aquele em que a câmera faz a vez de uma caneta. Na época de Cocteau isso era um recurso poético. Hoje é real, com as minúsculas gravadoras digitais cumprindo roteiros imaginados diretamente para elas, sem passar pelo papel. Em “Fonte dos que Dormem” há longos travellings pela mata, tomados de um automóvel em movimento. É crepúsculo (ou aurora). O papel do sol pequeno (poente ou nascente) persegue o autor. A lua parece um sol ou ele a ela nas primeiras cenas de “A Lua é o Sol”. Até que a luz difusa ilumine toda a tela e nada mais deixe que se veja. Também há signos, como uma bola azul, correntes, gravuras que sugerem o paraíso perdido ou um inferno alcançado. Mas ninguém deva discernir o que há de material na obra de Cecim. Ele precisava do cinema para prosseguir a sua experiência literária. E adentra na poesia das imagens com intercessões de palavras. A força dessas palavras não precisa ser ilustrada sob ou sobre. Tudo é a casa do ego, ou a fonte do id, ou a alma de um poeta que tenta emergir do corpo. Se a gente se impacienta com o que vê, nada mais natural. Perdemos o paraíso e não temos força para voltar.A impaciência embota a percepção do outro e as pessoas, que não são iguais, não tentam se comunicar inteiramente. É assim que Cecim passa do romance ao filme/disco. Um criador que se completa.(Pedro Veriano);
Escrito por Pedro Veriano às 10h02
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Propondo Divertir
Há pouca diferença entre a postura de Meryl Streep em “O Diabo Veste Prada” de Sandra Bullock em “A Proposta”. Ambos os tipos revelam um excesso de auto -estima, uma disposição de pisar nos outros para manter um “status”. São megeras indomadas. Bullock, que assina a produção executiva de “A Proposta”(The Proposal), é uma canadense que subiu para ser e gerente de uma editora bem sucedida, subitamente ameaçada de expulsão dos país (EUA) por não ter visto de permanência, ou o muito conhecido “green-card”(há um filme com o nome desse cartão, e Gerard Depardieu é a estrela). Como recurso para não deixar o reino que moldou, a executiva segura o subalterno imediato, um secretário que ambiciona ser escritor e vê no emprego a chance de lançar um primeiro livro. O rapaz é “nomeado” noivo da sua superiora defronte de uma comissão do Departamento de Imigração. Nem adiante cantar de galo nessa hora. Ruim com ela de esposa pior sem ela fora do emprego. A segunda parte da comédia é a visita que o mocinho faz à casa paterna onde a avó comemora seu 90° aniversário, Nessa altura a despótica chefa descobre que o seu secretário é rico, que a família dele é dona de quase todo o comércio de uma pequena cidade do Alaska, que esta goza de união e bom humor. É muito difícil não adivinhar como o filme termina. Mas é a tal coisa: enquanto não se chega ao óbvio se divirta com a paisagem do caminho. E algumas situações fazem rir até por lembrar a velha screwball, quando Cary Grant baixava a porrada na cara de Katherine Hepburn ou Jimmy Stewart botava rabo na saia de Jean Arthur. O cinema americano antigo era ótimo e o novo se recicla quando o invoca. “A Proposta” diverte porque é um cristalino “déja vu” e os intérpretes conseguem ser simpáticos. Querer mais é pedir o impossível para a lâmpada de Aladim, (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 14h09
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Nouvelle Vague, et alors...
Burt Lancaster como o príncipe Fabrizio Salina no “O Leopardo”(Il Gattopardo) que Luchino Visconti tirou das páginas de Giuseppe Tomasio de Lampedusa, diz, quando sabe da forçosa mudança que advirá, uma frase que sintetiza a febre de inovações: “-É preciso mudar para continuar tudo como está”. No final dos anos 50, os críticos da revista “Cahiers du Cinema” arranjaram como passar da teoria à prática e mudar a linha produtiva do cinema francês. Criaram o que eles mesmos chamaram de “nouvelle vague” (nova onda). O capitão desse barco, a surfar na nova marola, foi François Truffaut. Romântico fã de filmes de Hollywood foi mais fiel a Lampedusa & Visconti. Desde “Les 400 Coups”(Os Incompreendidos) fez cinema de linguagem “griffithiana”(a básica, criada por David W. Griffith) mesmo adentrando por temática pouco navegada. Seus colegas Claude Chabrol, Jacques Rivette e Eric Rohmer seguiram praticamente o mesmo caminho. Mas Jean Lu Godard propôs não um surf em onda milimetrica. Foi ao tusiname, ou à nossa pororoca com a sua idéia de recontar o cinema. E o seu estilo foi muito bem definido pelo critico brasileiro Antônio Moniz Vianna, morto este ano: “Você pega duas pessoas conversando, cada uma em uma cabeceira de mesa, foca o meio da mesa e assim ouve as pessoas e não as vê”. Godard seria,desta forma, o precursor dos filmes panorâmicos (ou scope) gravados em “fullscreen”(tela cheia) nos modernos processos de telecinagem (DVD). Acontece exatamente isto na cena de “Gigi” em que Maurice Chevalier canta para a amiga Hermione Gingold “I rember it well”. No enquadramento original ele e ela defrontam-se em limites de mesa, mas nas cópias brasileiras em DVD há não só movimentos de câmera feitos com moviola como a tal mesa vazia com vozes no ar. Godard usou o cinema para derramar erudição. Cita dezenas de livros e filmes (de sua preferência), busca frases-feita, trabalha sempre na idéia brechtians de que o espectador deve sempre se conscientizar de que está no cinema, ou em outras palavras: que não se deve envolver pelo que vê, e aborda tema do seu momento e de sua preferência política (cambiável naturalmente pois Godard é inteligente bastante para saber que homens e idéias mudam). “Helas Pour Moi”(Infelizmente por mim) poderia ser uma frase do espectador, mas é um anti-romance dirigido por Godard no fim do século passado. Simon e Rachel, as personagens principais, são nada mais que figuras interpretadas por atores que falam como elas e falam delas. Não há limite para se saber quando ou onde estão os intérpretes e as personagens. Mas isto se advinha. Nada é claro. Com frases que evocam até a descoberta da massa escura que existe no universo o filme embaralha seqüências absolutamente avulsas, vendo-se, por exemplo, um casal à beira mar e um barco se aproximando, depois se torna ao casal e o barco ainda se aproxima depois de se ter visto passando, e um outro tipo chega nas primeiras tomadas com o objetivo de encontrar um espaço onde seu bisavô orava e diz que não sabe desse espaço. A idéia é de um desencontro amplo, no texto do roteiro e na forma escolhida. Com isso pode-se chegar à própria massa escura, uma espécie de mesentério que segura o intestino do universo. O cinema que eu gosto é precisamente o diferente. Lembro da critica que Woody Allen recebe da cara-metade em “Sonho de um Sedutor”(Play ir again, Sam): “Espectador da vida”. Correto, o cinema torna a gente espectadora da vida. Vê um sujeito cair na lama e ri (pimenta no cu dos outros é refresco), como em dezenas comédias do Gordo e o Magro. Mas nessa qualidade se fortalece o espírito. E se um dia dá vontade de decifrar charada, tudo bem que se tente achar um liame em Godard. Isto porque ele não faz surrealismo. Buñuel riu quando alguém achou um “enredo” em”Un Chien Andalouz”. O cinema de Godard, justificando a “nouvelle vague”, é a quebra de tudo. Refilma-se se rearticula a linguagem, mas não se diz a troco de quê. E a moral da história é que esse raciocínio implica numa ida ao cinema consciente de que se foi ao cinema e se volta para casa como se foi. As emoções são dispensadas como armas dos velhos cineastas, da “vielle vague” ou da calmaria. Eu passo. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 09h39
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Jackson no Cinema
Não se comentou, quando dos funerais de Michael Jackson, mas o cantor fez cinema e foi candidato ao prêmio de coadjuvante num festival de filmes de ficção-cientifica(?) por seu papel de espantalho em "The Wiz"(aqui "O Mágico Inesquecivel", versão de "O Mágico de Oz" em musical dirigido por Sidney Lumet. MJ contracenava com Diana Dors e um grande elenco. Dançava e cantava com a desenvoltura que sempre ostentou. E ainda era negro. Os canais deTV e as distribuidoras de DVD perderam a chance de faturar audiência com a reprise do filme agora. E o mais curioso: o filme era bom.(PV)
Escrito por Pedro Veriano às 15h38
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