Saindo de uma Fria
.. Os americano elegeram “A Era do Gelo 3” o filme preferido do feriado da independência. A animação dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha deu porrada nos robôs de “Transformer 2” e ainda chutou para escanteio “Inimigos Públicos”, o já candidato ao Oscar de 2010 (pelo menos Johnny Depp está no páreo segundo os produtores do filme dirigido por Michael Mann). Eu não vejo filme dublado, mas fui ver o desenho de Saldanha até por não ter opção na ida aos cinemas. Dei uma de César (parafraseando o romano): fui, vi e ganhei. Descontando a técnica, que a cada dia se aprimora e agora roça a 3D (que por aqui não chega), a animação do Blue Sky, departamento do gênero mantido pela 20th Century Fox, tem um ritmo alucinante que não esmorece, tem excelentes piadas e se arvora a conteúdo. Em primeiro lugar passa pra gente que a bicharada do mundo gelado que forçosamente migra para um cenário tropical, não desgruda uma da outra. Os mamutes estão para ser pais e ganham do tigre dente de sabre, da jaguatirica faladeira, dos roedores guris e até do glutão Scrat, aquele bichinho que persegue uma noz o tempo todo, o carinho de recepcionistas.Essa turma ganha novas personagens com ovos de dinossauros que Sid, a jaguatirica (dizem que é preguiça, mas eu não acho um bicho parecido), acolhe como bibelôs e acaba servindo de “mãe” aos bebês precocemente carnívoros (notem: são filhos de tiranossauro rex, aquele tipo carnivoro). Chega até a sensibilizar a mãe dino, uma tonelada de animal que acaba salvando a turma de situações quentes (não se diz frias porque o pessoal quer mesmo voltar para o “habitat” gelado). Scrat encontra Scréte, uma companheira que também gosta de noz. Mas como deixar o amor passar por cima da fome? De inicio o idílio faz com que o bicho ceda parte de sua presa vegetal para a namorada. Mas depois de juntos, a profia pela noz prossegue. Uma visão muito “humana” do casamento. O filme também segue a lição de Dorothy, a menina de “O Mágico de Oz”: “não há melhor lugar do que a casa da gente”. E a meta é voltar ao gelo, com os mamutes já carregando o filhote. Tem até uma amostra da velhice do tigre, perdendo corrida para um bambi gaiato. Coisas de bípedes pensantes que o roteiro joga na fauna antediluviana sempre perseguindo o humor. Os dubladores esforçaram-se, o som do cinema esteve de concordância com a minha precária audição. Tudo azul (ou “blue sky”) a ver a sala lotada festejando com sorrisos dos espectadores.Dá para concordar que desta vez a seqüência de uma franquia foi melhor do que a matriz. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 09h53
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karl Malden
Um ícone do cinema morreu aos 97 anos no dia 1° de julho. Karl Malden, nascido Mladen Sekulovich nasceu em Chicago de mãe tcheca e pai sérvio. Ainda jovem começou a fazer teatro e o seu talento levou-o a Broadway. Daí para o cinema foi um pequeno passo. Fez cerca de 70 filmes incluindo-se trabalhos para a TV. Chegou a dirigir dois títulos, um deles sem assinar o crédito. Marcou época em papéis como os de “Uma Rua Chamada Pecado”(A Streetcar Named Desire), que havia feito no teatro, “Baby Doll”(Boneca de Carne), “Sindicato de Ladrões”,”A Tortura do Silêncio” e “Patton, Rebelde ou Herói”.Ganhou um Oscar de coadjuvante por “Sindicato de Ladrões” e mais 10 prêmios internacionais por filmes de cinema e de TV tendo sido candidato a mais 10. Nos últimos anos o ator escreveu sua biografia: ”When do I start: a Memory”. Em 1963 foi membro do júri do Festival de Berlim. Nunca foi galã, como nunca deixou de impressionar como coadjuvante. Fazia parte do grupo de estrelas do melhor cinema americano dos anos 50/60/70.
Escrito por Pedro Veriano às 10h55
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A Irmã da Noiva
“O Casamento de Rachel”(Rachel Getting Married) revela a roteirista Jenny Lumte, filha do cineasta Sidney Lumet (“Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto”). E dá chance à “princesinha” Anne Hathaway, até então só “endiabrada” como secretária de Meryl Street em “O Diabo Veste Prada”. Anne é Kim, a irmã da noiva. Quando o filme começa ela está saindo de uma clinica de desintoxicação. O vicio levou-a a jogar um carro n’água e dentro dele o irmão de 7 anos. Ele morreu. O drama pesou e só depois de alguns anos a moça parece recuperada a ponto de ir ao casamento da irmã. Mas o filme não é bem “a volta da filha pródiga”, recebida por um pai que se separou da mulher-mãe e hoje quer botar a família nos eixos modulando a mágoa de Rachel, futura esposa de um “jazzman”. Quem viu “Cerimônia de Casamento”(A Wedding) de Robert Altman não vai estranhar. As histórias se parecem. Mas no filme de Altman eram muitos tipos em conflitos pessoais e coletivos. Aqui é só a festa das bodas. Ali tudo deve ser alegria segundo o figurino da classe. Mas as gargalhadas não escondem mágoas e ofensas. Muitos discursam na hora do jantar mas poucos dizem o que sentem. Nem Kim, esforçada em falar bem do que deve ser do bem. Mesmo assim, mesmo banhada de hipocrisia, a cerimônia acontece. E a câmera se afasta com Kim, solidária à ela. Seria “A Irmã da Noiva”, um titulo mais coerente. Você pode achar que faltou lenha na fogueira, ou melhor, que o fogo poderia queimar além do que se vê. Mas a idéia é fazer um filme domestico, com câmera na mão, “décor” modesto, gente com cara de gente (não de artista de Hollywood). Por aí dá certo. Naturalmente que as coisas da vida sobram pelo ralo da pretensão. Não há profundidade. Tenha-se, para gostar, de uma filmagem caseira em que se conhece o cinegrafista e quem está em foco. A cabeça faz as conclusões.(Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 15h54
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O Astro do Século
Quando o cinema ainda não tinha aprendido a falar, o “astro” era o embonecado Rudolph (ou Rodolfo) Valentino. Quilos de vaselina nos cabelos, lábios e sobrancelhas pintadas, gesticulando para suprir as falas (que restavam escritas nas intercessões de quadro escuro) o galã fazia as melindrosas da platéia desmaiarem. Contam que em Belém um namorado chegou a dar um tiro na tela (não se de qual cinema) porque a garota dele, sua acompanhante numa sessão de “O Águia”, derramava elogios românticos a Valentino e não deixava nem mesmo que ele, o seu eleito, pusesse um braço sobre seu ombro. Depois que chegou o som o público aplaudia quem soubesse gravar juras de amor. Clark Gable, Gary Cooper. Gary Grant, e até “caras de mau” como Humphrey Bogart, sabiam dizer “I love you” e com isso receber respostas das mocinhas abaixo da tela (“We love you too”). Hoje um artista suplanta todos esses. Chama-se Computador. Ele faz o charme dos filmes de verão, esses que custam mais de 200 milhões de dólares, ganham mídia na base do “chem” e atraem quem na bilheteria já sabe como o filme começa e termina. Quem, afinal, poderia fazer as continuações de “O Exterminador do Futuro”, “Transformers”, “Uma Noite no Museu”, e até mesmo animações como “A Era do Gelo” ? O critico que vai ver esses filmes, mesmo não pagando ingresso, deve matutar que está perdendo, em cada um, no mínimo duas horas de sua vida. E para escrever o quê? Dizer que o roteiro é arranjado, que os atores estão péssimos, que os tipos seguem modelos ultrapassados, que a linguagem linear é cafona como se usava nos primórdios da industria do gênero? Mr. Computer faz e acontece na tela que hoje volta a exigir óculos bicolores para disseminar a ilusão de 3 dimensões, aumentando os desastres cênicos e a barulhada que deixa um trio elétrico baiano com jeito de segredos sussurrantes de enamorados. Para se ter uma idéia do absurdo que é este cinema feito com e para S. Majestade Computador, os roteiristas dos filmes mexem com o tempo através de brechas para o filho do futuro salvaguardar a barriga da mãe que o suportou no passado. É a explicitude da chula mensagem “guarda a puta que o pariu”. Peter Bogdanovich (diretor de “A Última Sessão de Cinema”) escreveu que os melhores filmes já foram feitos. A gente não crê nesse tipo de bruxa, mas dizer taxativamente que elas não existem é arriscar queimar a mão no fogo. Pelo menos no plano comercial, onde cinema ombreia com qualquer produto de venda em loja (e não é à toa que cinema, agora, é coisa de shopping ). Ah sim: “O Exterminador do Futuro 4” tem o subtítulo de “A Salvação” e Transformer 2” de “A Revolta dos Derrotados”. Entendam: a salvação está em se abster dessa coisa, e só quem é “looser” (perdedor, derrotado) se arrisca a brigar com latas que se transformam. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 14h29
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A Bela e a Fera
Jean Cocteau(1889-1963) achava-se feio. E era, embora perdesse para Augustin Lara,o compositor mexicano que apesar disso foi marido de Maria Felix, a bela que lhe inspirou o bolero “Maria Bonita”.Mas Cocteau era polivalente. Fez pintura, teatro, música, coreografia, literatura e cinema. Sua contribuição para o cinema não se resumiu à direção de filmes. Fez roteiros originais e derivados de suas peças. Mas foi um dos pioneiros do surrealismo na cinematografia (“Sangue de um Poeta”/1930) e atraiu o grande público com a sua versão e “A Bela e a Fera”(La Belle et la Bête) o conto de Jeanne Marie Leprince de Beaumont. Em “A Bela e a Fera”(1846) e “Orfeu”(Orphée,1949) Cocteau deu vazão ao seu complexo de “fera”. No primeiro exemplo ele tratava de tal forma o monstro que abriga a linda donzela à guisa de um favor prestado ao pai dela, que a platéia não achava graça quando surgia o príncipe encantado com a cara de Jean Marais. Por sinal que Marais era o amor de Cocteau. Está implícita a comunhão de corpos no encanto da história de fadas. Mas em “Orfeu” o poeta-cineasta foi mais claro: não era só o mito do também poeta que vai buscar a esposa no terreno da morte com a condição de não vê-la. É a idéia, que não está na mitologia: a morte surgir do espelho. Dizia Cocteau que é no espelho que a pessoa se vê envelhecendo, ou seja, a caminho da morte. Mas também é no espelho que se vislumbra um rosto muito, pouco ou nada bonito. Marais, de novo, entrava no espelho como uma nova Alice e por um “décor” fantasmagórico acabava no tribunal que iría julgar o seu apelo, ou seja, a volta de sua amada Eurídice. Amanhã é dia de rever “A Bela e Fera”. Impossível esquecer Marais maquilado de forma extraordinária por Hagop Arakelian, chorando quando La Belle passa o tempo que lhe foi dado pela Fera para visitar os pais. O monstro diz, moribundo: “-Pobre de nós, as feras, que na busca do amor acabamos por ficar na lama e morrer”. Cocteau estaria deprimido nesse tempo. A sua poesia evocou a maldade dos que abominam a feiúra e, pior do que isso, a desprezam. Mas o filme também é primoroso na forma. A fotografia de Henri Alekan, a cenografia de Chistian Bérard e a música de George Auric compõem um poema em imagem e som. Curioso é que apesar desses elementos poéticos, a direção coube muito mais a René Clément (de “Brinquedo Proibido”). Explica-se: Cocteau não era versado em linguagem cinematográfica. No seu currículo tinha, apenas, o surrealista “Le Sang d”Un Poete”, onde era fácil trabalhar pois a continuidade se fazia no bojo da criação, à maneira de Orfeu definindo-se:“-Poeta é um homem que escreve sem ser escritor” (jogando para o cinema: o homem que filma sem ser cineasta). Eu vi “La Belle et la Bête” em 1949 no finado cinema Independência. Na época era raro um filme francês na programação edificada por Hollywood. Saí impressionado e querendo conhecer mais e mais sobre Cocteau. Penso que hoje o filme possui o mesmo fascínio. Aproveitem na reprise da Sessão Cult e no DVD que se poide achar las locadoras..
Escrito por Pedro Veriano às 15h36
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Desonra
O Japão esteve entre os paises que foram brigar no Iraque a pedido de George W, Bush. A meta era derrubar o ditador Saddam Hussein, não porque ele tenha sido pintado de diabo pelos meninos do desenho animado “South Park” mas pelo boato dele guardar, sei lá aonde, “armas de destruição em massa”. Um adendo: antes do inicio da guerra, uma comissão da ONU esteve em Bagdá vasculhando o possível arsenal de Hussein e não achou as tais armas. Quem sabe confundiu “destruição em massa” com “destruição de massa”, coisa que diz respeito às panificadoras. Boa parte do mundo foi contra essa invasão na terra alheia. Em alguns paises os voluntários para a chamada Força de Coalizão, foram recebidos de volta com impropérios. O filme “Desonra” (Bushibg/2005) de Masahiro Kohayashi, mostra isso através de uma jovem chamada Yuko (Fusaki Urabe). Ela chegou a ser refém dos iraquianos. Mas voltou ilesa à sua terra natal. Os ferimentos seriam morais e a seguir como telefonemas, e-mails, mau tratamento em restaurante, rompimento de namoro, e agressões a familiares, com o pai sendo forçado a pedir demissão em uma firma onde trabalhava por mais de 30 anos (parece que por lá não existe direito adquirido). Yuko pensa em voltar para onde veio. Melhor ser refém de estrangeiros do que estrangeira em sua terra. E o velho pai deixa a imagem, ao ser focalizado num grande plano, em uma estrada vazia, de quem está a ponto de se matar. No caso não há sinal de haraquiri: há mortes bem ocidentais, uma vergonha que abrange o aspecto cultural encapando o desespero. IMAGENS O filme de Masahiro Kobayashi (não confundir com Masaki Kobayashi o diretor do longo e marcante “Guerra e Humanidade”) tende ao docudrama até por se basear em fatos reais. O diretor de 55 anos, com 11 filmes no currículo (além de mais alguns como roteirista), não se deixa levar pela introspecção na análise dos tipos. O que se vê é a rotina de um bairro modesto, o que fazem as personagens, o que se ouve, se atura, se repele. O mais emocionante é um plano médio pegando o velho funcionário e o seu chefe imediato, o primeiro ouvindo a conversa de que “é preciso demitir pelo bem da firma” e o segundo chegando a se ajoelhar, pedindo ao patrão que não faça isso, que o deixe no emprego. A humilhação é a parte mais dramática da história. Mais do que a cena em que a jovem, pivô do problema, ouve os motivos do namorado que lhe deixa. A frieza desse diálogo e a postura dos dois que falam, ambos de pé, um em cada canto do quadro, revela que a moça já está “vacinada” de reações negativas à sua postura numa guerra que agora todo mundo condena. O filme prende-se a fatos acontecidos e diz que não pode haver herói que não seja vestido de loas pela maioria da população. Quem quiser ganhar ponto em campanhas estrangeiras que se prepare para mudar o verbo: não é ganhar, é perder. Bom cinema de linguagem direta, preferindo sempre a exposição dos fatos a se adentrar na exploração da psicologia das personagens, deixando com o público a real dimensão do que se passa no intimo da ex-voluntária de guerra e dos reflexos em seus entes queridos.
Escrito por Pedro Veriano às 15h33
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Narciso Brasileiro
A mitologia grega diz que Narciso, o belo, não conseguiria corresponder ao amor de Eco, amaldiçoada por Hera a ponto de apenas repetir o que lhe dissessem. Acabou apaixonando-se pela sua própria imagem refletida nas águas calmas de um rio. Não sei se Cláudio Torres, o cineasta filho de Fernando Torres e Fernanda Montenegro, irmão de Fernanda Torres e cunhado de Adrucha Waddington, (vale dizer uma família de cineastas) pensou nisso ao escrever o roteiro de seu segundo filme de longa-metragem, ”A Mulher Invisível”, ora em cartaz nacional. O certo é que o personagem Pedro (Selton Mello), abandonado pela esposa Marina (Maria Luisa Mendonça), cai de amores por Amanda (Luana Piovani), linda mulher que bate à sua porta pedindo-lhe um pouco de açúcar. Seria uma forma de esquecer o mau relacionamento com Marina, mas o problema é que Amanda não existe, ninguém vê. É o “alter ego” de Pedro, ou melhor, Pedro é um novo Narciso, apaixonado por si mesmo. A idéia é boa. E o gancho para a comédia cai bem em momentos quando o herói surge em restaurante, ou em fila de cinema, de mãos dadas ou abraçado com a garota que só ele enxerga. Para os outros é uma vitima de romance contrariado a ponto de enlouquecer. Isto, pelo menos, é o que pensa o seu colega de trabalho Carlos (Vladimir Brichta). E é o que deixa pena na vizinha Vitória (Maria Manoela) uma viúva recente que se apaixona pelo “doidinho”. A base da história é fazer com que a pessoa que de fato ama o sofrido Pedro substitua a imagem da “mulher invisível”,ou seja, dissipe a síndrome narcisista do jovem funcionário da prefeitura (do Rio) encarregado da vigilância do trafego(o contraponto para a crise do moço, jogando-se planos de engarrafamentos como causa de um estresse agravante do caso de isolamento afetivo). Há bons momentos como realização cinematográfica, mas a sensação que fica no espectador é de uma anedota esticada, podendo ser mais proveitosa com menos tempo de ação. Também o roteiro se rende ao caricato para forçar o riso e com isso ganhar ponto nas bilheterias. A questão de Narciso fica enterrada no alicerce da trama. E é uma pena. A idéia podia render um belo filme. Mais substancioso (e como!) é “Desonra”(Bashing/Japão,2005), filme do japonês de Masahiro Kobayashi Aqui, uma refém japonesa no Iraque consegue voltar à sua terra natal mas é repudiada pelos conterrâneos porque se alinhou como voluntária na Força de Coalizão enviada logo que os EUA declararam guerra a Saddam Hussein. Ela perde o namorado, recebe telefonema e e-mails violentos e por sua causa o pai, antigo funcionário de uma firma, é obrigado a pedir demissão. Pressionada por tanta animosidade a moça acaba pensando em voltar ao Iraque, ou reassumir a idéia que teve antes, deixando de vez a sua gente. A história é real, a narrativa segue uma linha de docudrama (documentário dramático), nada é dispersivo nos pouco mais de 80 minutos de projeção e os atores são excelentes. O que não se quis foi reforçar a gênese do drama, ou seja, contar como se deu o engajamento da jovem numa guerra abominada por tantos, nem o motivo da ojeriza dos japoneses pela campanha bélica no Oriente Médio (pode-se adivinhar isso até porque não é um sentimento exclusivo do Japão: muitas nações condenaram a luta “profilática” do governo Bush, alicerçada na idéia de que haviam “armas de destruição em massa” próximas de Bagdá sem nunca se provar que isso existiu). O que Kobayashi quis mostrar (e mostrou) foi uma situação. E o fez de modo contundente. Não há quem não sinta pena de filha e pai marginalizados em seu mundo. Afinal, um bom filme.
Escrito por Pedro Veriano às 09h26
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Filmes de Sempre
O cinema é uma arte ingrata. Sofre a ação do tempo na emulsão da película ou na dissolução das cores quando expresso na forma digital e perde força quando algumas temáticas exemplificam ações restritas a um tempo. Isto sem falar na estratificação da linguagem, com alguns filmes espelhando a data de suas confecções no modo de tratar um drama, uma comédia, até mesmo a exploração documental de um assunto (é sempre bom lembrar que mesmo no documentário o que se vê é o que a pessoa que está com a câmera quer que se veja). Mas há filmes que ficam retidos na memória. Centros de emoções podem refletir o que se passou em uma data, a lembrança de um momento vivido pelo espectador, ou tocar de tal forma o coração e a mente a ponto de serem lembrados por suas qualidades intrínsecas, seja o tema, seja a narrativa, seja a empatia que o elenco veio a provocar. Os críticos de cinema de Belém estão devotados, agora, a exibir filmes que marcaram época. Nas diversas fontes onde atuam, programam títulos que mereceram prêmios ou que fizeram filas quando foram lançados nos cinemas da cidade. “O Corcunda de Notre Dame”,versão de 1939 dirigida por William| Dieterle, é um bom exemplo. Ninguém esqueceu Charles Laughton como Quasimodo, o personagem-título. No filme ele termina abraçando uma estátua da monumental igreja francesa dizendo: “-Por que eu não nasci de pedra como tu ?”(Why I din’t born a stone, like you) Isto depois de ter tocado em seu rosto disforme e afirmado: “-Eu sou feio...como o homem da lua!”(I’m ugly... like the man of the moon). Maureen O’Hara fazendo a cigana Esmeralda é a bela a contrastar com a fera. Se ela acaba nos braços do poeta Gringoire (Edmond O’Brien), contradizendo o livro de Victor Hugo de onde o roteiro do filme se origina, isto não é só perdoado como amado pelo público. O mau Frollo ( Cedric Hardwick) paga com a morte o seu ciúme doentio pela cigana. A direção de arte, os atores, a cinegrafia, tudo impulsiona o feitiço que este filme gerou em gerações de espectadores. É um desses títulos raros que prosseguem grandes nas revisões. “A Bela e a Fera”(La Belle et la Bête) é o melhor que o poeta Jean Cocteau fez em cinema. Ele que trabalhou com o surrealismo em coisas como “Sangue de um Poeta”- ou quis passar só o poema para as imagens a exemplo de “Orfeu”, -sublimou a paixão de um monstro por uma linda donzela na linha do conto de fadas de Mme. Leprince de Beaumont. Foi um filme tão lírico que a platéia ficou triste ao ver “a fera” virar um príncipe com a cara de Jean Marais (o amor de Cocteau). Desmentiu-se o que dizia o personagem: “-Pobre de nós as feras que só sabemos sofrer e morrer”(Pour de nous, la bêtes que nous ont soufrir et mourir”). “Meu Tio da América”(Mon Oncle D’Amerique), de Alain Resnais, está entre o poucos exemplos de narração dramática com base cientifica. Através de exemplos de reflexos condicionados vê-se 3 histórias, seguindo os tipos com um humor inteligente que dilui qualquer resquício melodramático vulgar. É um modelo de linguagem cinematográfica. “Matar ou Morrer”(High Noon) está entre os grandes westerns. O filme usa do difícil recurso de ação cronometrada, ou seja, o que se vê se passa no tempo em que se está vendo. Gary Cooper é o xerife que recebe um aviso desafiador: bandidos que ele prendeu estão soltos e chegam de trem para matá-lo. E isto acontece na hora de seu casamento. Resta apelas para os amigos mas, nesta hora, os amigos se escondem. Fica o caubói sozinho diante de pistoleiros malvados. Fred Zinnemann dirigiu esta obra-prima que deu um Oscar a Cooper. “Morangos Silvestres”(Simultronställe) é Ingmar Bergman dissertando sobre a relatividade da sabedoria. Um velho médico (o cineasta Victor Sjoström)vai receber uma comenda e no caminho lembra de sua vida e carreira com isenção de animo, ou melhor, revisando criticamente a sua postura profissional. Um raro exemplo de abertura no cinema introspectivo do cineasta sueco. Todos entendem o drama do mestre Isaac, que entre pesadelos do passado vê-se reprovado ao examinar um paciente...morto. E ainda tem um Fellini que os que viram não esqueceram : “Na Estrada da Vida”(La Strada). É aquele filme em que uma garota deficiente é entregue por seus pais a um saltimbanco e corre estradas entre pouco riso e muitas lagrimas. O filme que celebrizou Giulietta Masina, mulher do diretor. E para Anthony Quinn, que fez de tudo em cinema, foi o seu melhor momento. São filmes realmente duráveis.Estarão nas diversas salas programadas pela ACCPA (Olympia, Libero Luxardo, IAP) Todos rodados em preto e branco, mas com as cores da alma a brilhar na mente de quem os viu ou vai ver. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 11h06
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O Cinema das MInorias
A gente aprende na escola que as leis da mecânica chamam-se cinemática, estática e dinâmica. Cinemática trata do movimento. Louis e Auguste Lumiére, franceses que tinham uma industria ligada à emulsão para fotografia, inventaram um aparelho que projetava imagens em movimento e deram a ele o nome de “cinematographo”, ou seja, grafia da cinemática. Daí se definir cinema como “a arte das imagens em movimento”. Por isso é que se pergunta se os filmes demasiadamente parados, com seqüências compostas de planos longos e vastos (de médios e grandes) é mesmo cinema. Invariavelmente são filmes considerados “chatos”. O caso dos dirigidos pelo russo Aleksandr Sokurov, dois deles programados pelos críticos locais: “O Sol” (2005) e “Alexandra”(2007). No primeiro caso, que eu vi, o episódio histórico do papel do imperador japonês na hora da rendição do Japão, ou seja, o fecho da 2ª,Guerra Mundial, é tratado como um cerimonial. A câmera é sempre fixa, o espaço varia da sala do imperador no seu palácio ao “bunker” para onde o levam com medo de bombardeios (com um ligeiro intervalo em um jardim), tudo isso esvaziando emocionalmente o enfoque do chefe de estado e deus, criado com mimos como uma criança quando vive a sua hora critica e é desafiado a enfrentar uma realidade dolorosa. Mas apesar desses entraves de estilo, ou de desvios da linha original da cinematografia, é importante notar que o processo de contar os fatos, ou analisá-los, procede dentro de sua opção por maior densidade. Há momentos brilhantes. Em um deles, Hirohito, o imperador, renuncia a sua condição divina e recebe a imperatriz de quem se havia separado por razão da guerra a alguns dias. Ele conta a ela a sua opção e ela pede que lhe ajude a tirar o chapéu da cabeça, preso por grampos nos cabelos. Esta operação parece complicada, mas, ao sair o chapéu, marido e mulher se abraçam. É obvia a metáfora de que ela tirou a coroa. Como o “filho do Sol”, no preceito religioso alimentado pela cultura milenar, olha da janela envidraçada a imagem que parece ser da lua. Seria mesmo o astro que o sol ilumina ou o próprio sol esvoaçado? Toda a fotografia do filme é embaçada, e com a projeção digital que diminui sensivelmente a luminosidade cabe com relevo a idéia de que a luz do homem-deus está desaparecendo. Também no jantar com o general McArthur, o militar americano que poupou Hirohito da vergonha que seria a sua prisão, o rosto do ianque é sempre encoberto pela sombra. Ele não teria como, mesmo na situação de vencedor da guerra, se ombrear em luminosidade com o descendente do astro-rei. Para ver “O Sol” como outros filmes de Sokurov, é preciso predispor o espírito para vislumbrar o que está além da cinemática, colhendo frutos da pintura, arte que o diretor abraçou antes de fazer filmes. A mesma técnica de mostrar sem detalhes explicativos é a de Alain Renais em “O Ano Passado em Mariembad”(1962). Eu cheguei a conversar com o roteirista do filme, o escritor e também cineasta Alain Robbe-Grillet. Ele disse que o seu roteiro não foi filmado “textualmente”, salvando o diretor de ser considerado apenas um ilustrador. Mas desta vez a possível monotonia não deriva da estática. Muitos movimentos de câmera tentam dizer que um casal que se vê num hotel, no ano da ação, já se viu antes no mesmo espaço. Se ele ou ela duvida, cabe a questão do tempo como dimensão como cabe a questão da memória. Quem ama esquece depressa o seu amor? Ou o tempo atraiçoa os amantes jogando-os de per si em outra cena da vida? Resnais faz o reforço poético da investigação filosófica (não sobra nada para a ciencia de Stephen Hawkins). Para o público pode ser um relato confuso. Mas é só aprender a pensar. Quando você lê um livro nem sempre conta o que leu da mesma forma que outro leitor. A subjetividade é parte de um jogo. E só os grandes artistas sabem jogar. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 09h46
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A Permanente Suspeita
Hithcock veio da Inglaterra a convite do produtor David O. Selznick. O diretor consagrado em seu país pensara alto com a chance de trabalhar com, ou para, o homem que produziu “...E O Vento Levou” e comandava estúdios como a RKO. Mas logo se decepcionou. “Rebeca”, o primeiro filme, sofreu o despotismo de Selznick. Mas foi em “Suspeita”, o filme seguinte, que a coisa engrossou. Para se ter uma idéia, o final do filme imaginado por Hitchcock foi radicalmente mudado. O cineasta inglês fecharia a ação com o plano de uma carta caindo na caixa do correio onde a futura vitima do assassino traiçoeiro (tipo encarnado por Cary Grant) denunciava o crime. Selznick preferiu o que ficou: Cary dirigindo um carro conversível pela borda de um abismo com Joan Fontaine ao lado. Em dado momento a porta do carro, do lado de Joan, abre-se e ela tende a cair. Grant estende a mão. Há um close dessa mão. Empurrará a mulher? Na verdade a segura puxa-a para dentro do veiculo e sorri. Um “happy end” que não extingue a suspeita – pelo contrário, a endossa e faz prosseguir. O que ficou melhor. O capricho de Hitchcock chegou ao ponto da cena em que Grant leva um copo de leite para a esposa(Fontaine), acamada, colocar uma lâmpada dentro do copo para realçar a luz branca. Em contraste, a sala, a escada por onde Grant sobe, tudo é escuro e entrecortado com sombras das grades que existem nas janelas. O efeito é claustrofóbico. Isto não foi tocado. “Suspeita” também é o filme em que o diretor não aparece. Sabe-se que Alfred Hitchcock sempre surgia em algum plano de seus filmes feitos em Hollywood. Mas a norma só apareceu depois de “Correspondente Estrangeiro”, o filme a seguir. Com um rigor estético incomum. “Suspeita” está entre os melhores trabalhos do “mestre do suspense” em qualquer fase de sua carreira.(PV)
Escrito por Pedro Veriano às 09h44
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Todas as Telas
Talvez “Eu Odeio o Dia dos Namorados” tenha sido o pior filme que eu vi este ano, mesmo incluindo o DVD. A atriz & diretora Nia Vardalos errou o titulo: o que se odeia é o próprio trabalho dela. Se é que se pode chamar de trabalho. A Sessão Cult no Libero contou com “Frankenstein” de James Whale. O diretor é aquele personagem que Ian McKellen interpretou em “Deuses e Monstros” de Bill Condon: um homossexual atormentado que acabou morto em sua piscina pensando-se que mergulhou para fora da vida por vontade própria. Whale era uma pessoa inteligente que foi além do propósito do produtor Carl Leammle Jr ao abordar parcialmente o livro de Mary Shelley. Foi proveitoso o debate que seguiu a projeção. Por sinal que o filme lembra-me o amigo Marcelino Silva, incentivador do Cine Clube APCC nos primeiros anos. Marcelino amava o cinema e ao ficar cego soube resignar-se.”Frankenstein” de 1931 era o seu favorito e à sua memória eu dediquei a minha parte na programação. Na 2ª,Feira , outro clássico de cineclube: “Gunga Din” de George Stevens (1939). Foi sucesso de público por aqui, nos finados cinemas Moderno e Independência. Deixou saudosos fãs. Cary Grant, Douglas Fairbanks Jr e Victor MacLaglen fazem 3 soldados ingleses em campanha colonialista na Índia. Sam Jaffe, um ano depois de fazer o Lama de Shangri-la no “Horizonte Perdido” de James Hilton via Frank Capra é o corneteiro heróico, um indiano que se deixa matar pela gloria do exercito inglês. Gandhi não teria gostado da história inspirada num poema de Kiplyng. Mas o filme é um dínamo e tem a graça que não se via no semelhante “Beau Geste”. Penso que Stevens, na hora, lembrou-se de quando dirigia comédias do Gordo e o Magro. Grant está impagável quando entra num templo cheio de fanáticos assoviando. O desrespeito ganha o tom de comédia. Hoje isto é politicamente incorreto. Ontem era o sal de uma aventura. No DVD eu continuei rindo com “Um Simples Assassinato” de Lloyd Bacon. O roteiro é a cara de Damon Runyon, uma espécie de Nelson Rodrigues nova-iorquino em ação nos anos 20/30. Lembram-se de “Eles e Elas”(Guys and Dolls) ? E de “Dama por um Dia?” Filmes que saíram das historias de Runyon sobre a nata da bandidagem na Nova York da fase Capone & Dillinger .Neste exemplar de 1938 Edward G. Robinson perde fregueses com o fim da “lei seca” e quer impor a sua cerveja amarga no mercado legal. Fica arruinado, mas um golpe de sorte o auxilia. E no golpe uma série de coincidências hilárias dá um toque diferente ao chamado “filme de gangster”. O riso também chegou ao ver “A Vizinha do Lado”(Portugal,1945) mas, desta vez, por conta da analogia com as nossas chanchadas. A história do rapaz da aldeia que vai para Lisboa estudar medicina, mas acaba se metendo em teatro, é a cara do tipo que Cyll Farney interpretou em “De Vento em Popa”(1957). Até os romances se aproximam, com diferença apenas de endereço. O filme português foi dirigido por Antonio Lopes Ribeiro, o cineasta preferido do ditador Oliveira Salazar. Na época os cinemas de Portugal e Espanha se limitavam a “divertir” as massas. Os espanhóis eram piores com pragas como Joselito e Marisol. Na chanchada lusa pelo menos há uma certa malicia que envolve velhos conquistadores, vedetes geniosas e mocinhos mentirosos, tudo no liquidificador da ingenuidade. E revi “As Cartas de Madeleine” de David Lean, que por aqui se chamou também “O Grito da Carne”. Na estréia meteram o pau. O próprio Lean não gostou. Hoje é de aplaudir, Ann Todd, na época mulher do diretor, faz Madeleine Smith, personagem real de um julgamento por assassinato. Ela teria envenenado o amante. Mas foi absolvida por falta de provas. Seria o crime perfeito ou uma coincidência dramática. Ann, no fim, encara a objetiva. Quem quiser julgá-la que se apronte. E até a casa da verdadeira Madeleine em Glasgow foi filmada. Exemplar da melhor fase da distribuidora J,Arthur Rank. No Olympia um programa com filmes de Alain Resnais. O diretor de “Hiroshima Meu Amor” e da charada “O Ano Passado em Mariembad” é sempre uma curiosidade. Semana passada eu vi em DVD o seu “A Vida é um Romance”(1983). Nada mais chato. O roteiro de Jean Grualt, ótimo em “Meu Tio da América” e fantasmagórico em “O Quarto Verde” (este de Truffaut), focaliza um castelo e três tempos da vida do prédio, correndo as duas guerras mundiais e acabando como uma escola. Claro que as épocas se misturam sem avisos prévios, mas nada de interessante pode se ver no tempo e no espaço. Personagens diversas transitam como se brincassem de cabra-cega. Naturalmente tudo quer dizer muito. Mas não é sempre que se arranja paciência para descobrir esse muito.No “Mariembad” escrito por Alain Robbe-Grillet (a quem conheci pessoalmente), há pistas. O tempo é um alicerce para um romance que morreu no ovo. Vale dizer “a volta dos que não foram”. Mas no castelo de Grualt só resta a imagem de Fanny Ardant como o amor perdido do nobre construtor Rugero Raimondi. Um close dele franzindo as sobrancelhas é o retrato do espectador que não dormiu durante a exibição do filme. Mas eu posso estar enganado e ter adquirido o vírus da impaciência que atingiu o amigo Maiolino Miranda (ele já não suporta filme longo). Afinal a gente vai compreendendo na pratica que “le temp est d’argent”. Isto não quer dizer que os melhores filmes já foram feitos. A exigência é que se torna um fiscal da memória.(Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 10h04
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Filmografia Amadora
Estou escrevendo o que lembro sobre os filmes que fiz. É uma tarefa que começa em 1951 quando ganhei de presente de aniversario, de meu pai, uma câmera 16mm portátil (50 pés marca Bell-Howell). Quando fiz meu primeiro filme pouco sabia de fotografar. Usei o diafragma fechado (f-11) e luz do dia. Deu certo. Só muito tempo depois, conhecendo Fernando Melo, que foi o responsável pela fotografia de muitos filmes de Libero Luxardo, é que aprendi que diabos era ASA, copião, cópia de trabalho, edição de um modo geral. Em película fiz cinema até surgirem as câmeras de vídeo (VHS). Nos noventa passei para o DVD. Normalmente entro numa competição de fim de ano da família de minhas 4 filhas, quase sempre abordando o Natal. Meu titulo de 2008 foi “O Natal do Mendigo”, mais um (foram muitos) usando de ator o Manoel Teodoro, meu cunhado. Ele aplica os seus conhecimentos de teatro(foi diretor do Teatro Waldemar Henrique e aiunda faz palhaço nas festas infantis). A aventura de tanto tempo com o nome de “Eldorado” espraia para gravações em fita magnética de novelas e paródias. Tudo que me veio à cabeça e que soma ao divertido período de exibições de filmes na garagem de casa, na velha avenida S. Jerônimo, chamada de Cine Bandeirante. Penso publicar essas impressões. Pouco de uma bagagem volumosa ainda existe, entre as películas “O Desastre” de 1952 e “Brinquedo Perdido” de 1962. Do vídeo há muito (não tudo), e procuro preservar o máximo. Brincar de cinema sempre norteou minha vida, Gosto de ver a vida que se imita e se projeta.
Escrito por Pedro Veriano às 11h20
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Cecil B. De Mille
Cecil Bount De Mille (1881-1959)era visto há 50 anos como um diretor comericial de extremo mau gosto. E de mau gosto seria o critico que o elogiasse. Nesse tempo poucos falavam de filmes mudos do cineasta, como “Macho e Fêmea”(Male & Female/1919), reconhecido até por historiadores pouco condescendentes como Georges Sadoul. O malho ficava em cima de “Sansão e Dalila”(Samson and Delilah /1949), e eu lembro de Benedito Nunes numa aula para a minha turma no Colégio Moderno reclamando o leão empalhado que brigava com o gigante cabeludo do texto bíblico (no filme o canastrão Victor Mature que, mesmo assim, fez dois bons papéis respectivamente em “Paixão dos Fortes/My Darling Clementine e “O Beijo da Morte”/Kiss of Death). Hoje se revisa tudo. E é bom que se faça isso. De Mille vendia ingresso, e era um dos raros diretores a ter o nome na marquize do cinema, atraindo público como alguns atores. Na sua ultima fase (a pior) chegou a ser mencionado numa chanchada da nossa Atlântida, o nome dado a Renato Restier (Cecilho B. De Milho) em “Carnaval Atlântida” de José Carlos Burle/;1952. Alguns filmes de De Mille não podem ser julgados apenas como “caça níqueis”. “O Sinal da Cruz”(The Sign of the Cross/1932) merece uma revisão. O roteiro baseia-se no popular romance “Quo Vadis” de Henryk Sienkiewicz. Mas só em uma parte do livro (várias vezes filmado). Escrito (este roteiro) por Waldemar Young e Sidney Buchman, colaboradores do diretor por muitas vezes, vê a paixão de um centurião romano, Marcus (Frederich March) pela cristã Márcia (Elissa Landi). Pela garota ele enfrenta a corte do imperador Nero (Charles Laughton, excelente sempre), atiçando os ciúmes de Poppaea, a imperatriz (Claudette Colbert). No livro e no filme de Mervun Le Roy(1949) a moça vai para a arena ser devorada por leões, merecendo a intervenção de seu hercúleo criado. Em “O Sinal da Cruz” ela morre ao lado do amado romano que entre o prestigio e o amor prefere aderir à uma fé que não entende.Muito romântico ao sabor da época mas prudentemente realizado em estúdio, demonstrando como a velha Hollywood criava o mundo e o tempo nos seus domínios. O filme marcou a volta de De Mille a Paramount do seu amigo Adolph Zukor depois de uma estada na Metro. Em 1944 houve uma reprise com um prólogo escrito por Dudley Nichols, mostrando bombardeios americanos voando sobre Roma e os militares comentando que se trata da Cidade Eterna e por isso as bombas deveriam ser cuidadosamente atiradas, livrando espaços históricos como o Coliseu. Este prólogo não persistiu. Na edição em DVD o filme está como nos anos 30. Mas a resolução de imagem dá para dimensionar o falso fausto desejado por De Mille e até mesmo alguns planos que o Código Hays, a censura da época, obrigou a cortar. Vale a pena conhecer esta fase do cinema. O filme foi programado para a Sessão Cult do Cine Libero Luxardo(Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 11h09
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Feliz Natal
Catherine Deneuve descobre que está com leucemia. Mas o seu físico não é de doente. Apesar dos 65 anos e muitos quilos a bela da tarde prossegue bela do dia numa festa natalina em que o marido, sabiamente se qualificando de “sapo velho”(Jean Paul Russilon), consegue reunir a prole, desmanchando laços de inimizade que uns nutrem por outros. É clima de Natal, mas se a família enfeita uma arvore e arma um presépio o cisma da doença e de velhas rusgas está no ar. Pairando sobre tudo isso está o espírito do filho que morreu aos 6 anos antes dos irmãos ganharem autonomia e sair de casa. “Um Conto de Natal”(Um Conte de Noel) é um motivo para o cineasta Arnaud Desplechin retomar as personagens de seu “Reis e Rainhas” de grata lembrança. Aqui ele torna a tipos sofridos, a situações limites, e também aborda a doença, tocando na expectativa que anuncia a morte. O filme peca por ser muito longo. E sem necessidade. Há muito papo furado há muita filigrana que podia ser amparada para o bem de todos (tipos e produção). De qualquer forma é um enfoque curioso sobre a família. Bem melhor do que Sam Mendes fez em “Foi Quase um Sonho”. Quem perdeu no Libero Luxardo, interrompido por uma semana graças a um ar condicionado que não se condiciona, ou melhor, se condiciona na má conservação do prédio(Centur) de um modo geral (fiquei aterrorizado com o que na secção de microfilmes da Biblioteca Arthur Viana), que espere o DVD. Não deve demorar. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 15h48
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Despertar Amargo
O sonho americano, um presente de Morfeu ao governo Roosevelt na época do New Deal, hoje é desacatado pela geração Prozac, ou Valium, ou um sonífero mais forte. Para cineastas como o inglês Sam Mendes, sonhar só a peso de barbiturico, e nesta vida de violências recíprocas (marido e mulher vivem numa arena disputando cetros de pesos diversos), o melhor será usar o despertador, ou ingerir o lendário Pervitin, pílula largamente consumida pelos estudantes de 50 anos atrás. “Foi Apenas um Sonho” (Revolutionary Road) é um pesadelo vivido por um casal da classe média nos anos 50. O filme começa quando ele e ela se conhecem, e vai até ao pico de uma crise onde um dos dois forçosamente desaparece. Não é uma intriga policial a terminar com um crime engendrado pelo marido ou pela mulher. É um longo papo sobre desencontros, das pequenas coisas ao trabalho de um e de outro, ele empregado numa firma que detesta (até porque o pai nunca subiu de posto nessa firma), ela uma atriz que se deu mal e nunca mais pisou num palco. O casal pensa em fugir. Ela planeja uma viagem a Paris com ele deixando o emprego e ela se empregando num escritório americano na capital francesa. Seria a formula para cada um aprender a gostar da vida. Mas ele não se maldiz, até porque é adultero. E ela é forçada, em determinado momento, a traí-lo. Os dois têm um casal de filhos e espera um terceiro. A guerra paira sobre este feto que amadurece. Ninguém faz mais filmes como “Lar Meu Tormento” ou qualquer outra comédia interpretada por Gary Grant. O que era sonho, hoje parece piada. O livro de Richard Yates de onde veio o filme de Mendes, descrê de uma união perene, da monogamia, da compreensão à base da licença que uma pessoa dá a outra, perdendo e ganhando para manter o quadro de uma igualdade de desiguais. E o diretor, marido da atriz Kate Winslet, gosta desse caos ou desse “amargo despertar”(nome de filme). Ele havia feito antes “Beleza Americana”, um quadro ainda pior da sociedade estadunidense. O que vale no filme atual são os atores. Leonardo DiCaprio e Kate Winslet estão irrepreensíveis nos papeis que exigem uma certa postura teatral (Mendes é diretor de teatro). Mas não se diga que teatralizam os papeis. Defendem bem suas posturas e falas. O diabo é que tudo está a serviço de um pessimismo doentio. No fim, uma das mulheres massacradas pela estereotipagem fala da casa onde moraram as figuras centrais da história (ela sevia de corretora) e o marido, prudentemente, desliga o seu aparelho auditivo. Fosse um filme mais corajoso e se desligaria a câmera. Dá vontade.(Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 11h18
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