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Blog do Veriano
 


SICSU E O CCJ

O TEMPO DO CCJ

Morreu o Guilherme Sicsu. Foi meu vizinho e lembro seu cineclube, o CCJ (Cineclube Casa da Juventude). Empenhava-fundo a escolha de filmes para exibir por conta da sigla. Na época não tinha a facilidade  do DVD e datashow. A coisa funcionava na base da película de 16mm. Eu era um consumidor emérito dessa bitola que normalmente consistia numa maleta abrigando 3 rolos de filme.

Em 1957 eu contribuí para o CCJ. Namorava a Luzia e como ela era interna no Colégio Santa Rosa achei por bem exibir um filme no Gentil Bittencourt, estabelecimento da mesma irmandade religiosa (Filhas de Sant’Ana). Passei, atendendo a Sicsu, “Rastros do Ódio” de John Ford. Uma senhora sessão, com sala lotada e as alunas aplaudindo. Muito melhor do que a minha passagem pelo Santa Rosa com “Amanhã Será Tarde Demais” de Leonide Moguy.

Guilherme fez critica de cinema. No livro “A Critica de Cinema em Belém”(1983) estão 2 textos que ele publicou em “O Liberal Tabloide”. Um sobre a atuação do próprio CCJ,no dia 15/2/1960. Outra sobre o filme “Destinos Macabros”(Der Graijer) ,emm 7/2/1960. O então estudante secundarista seguiu a carreira de engenheiro. Deixou a cinemania. Mas deve ter lembrado seu tempo de amor às imagens que se movem



Escrito por Pedro Veriano às 16h29
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Atrações de Feira

 

Quando eu era mais criança (ou menos velho) o tempo do Círio mexia até com quem (como eu) gostava de estar parado. Atrações visando os romeiros eram muitas. Havia o “arraial”na praça, com todos os brinquedos que mais tarde foram limitados a um  terreno que antes abrigou um cinema (Moderno).  E havia teatro de vaudeville, aqui chamado “teatro de revistas”. Era o tempo em que a gente ia conhecer os donos das vozes que encantavam nos discos de cera e no rádio. Os cinemas Poeira e Moderno passavam a abrigar esse tipo de espetáculo. Eu ia nessa onda. Guardo na lembrança momentos em que se desafiava o puritanismo de então. Quando veio ao palco a vedete Virgínia Lane, que diziam ter caso com o presidente (ditador) Getúlio Vargas, as luzes apagavam e ela surgia caminhando do palco para o fundo da sala através de um estrado com  um jogo de luz que realçava a sua roupa cheia de lantejoulas (na verdade um maiô precursor do biquíni).

A mais tarde atriz das chanchadas da Atlântida, Adelaide Chiozzo, era a garota que tocava acordeom, com seu irmão. Os cômicos variavam de Colé, Badú, Zé Coió,e invariavelmente Jararaca e Ratinho. Em certo ano eles foram “condenados” pela igreja por causa de uma piada. Era assim: “- Cumpadre(como se chamavam), quem foi que criou o homem ?”

“-Cumpadre, foi Deus; mas ele se esqueceu de registrar a patente e hoje em dia todo mundo faz”.

Na mesma linha Violeta Ferraz do alto em que estava no palco do Poeira anunciou que ia cantar “Pecadora”. Mas ela pronunciou “Picadura”. E começou: “_Porque tens teu destino picadura....” As madames se levantaram puxando as suas fedelhas. O grosso da platéia ria sem peias.

Eu não peguei o tempo, mas o cinema Poeira sorteava patos e galinhas com o ingresso valendo de bilhete. O forte da programação das salas era comédia com o Gordo e o Magro e/ou filme de Tarzan. Depois disso é que chegaram os carnavalescos da Atlântida e de Herbert Richers. E as superproduções histórico-mitologicas que levavam multidões às salas, provocando empurrões entre uma sessão e outra.

Tinha cinema até em sessão de meia-noite. No Dia da Festa o programa do Poeira, e mesmo já com o nome de Nazaré, corria por toda a madrugada para que os romeiros esperassem o Recirio, procissão que acontece na 2ª.Feira e que encerra a festa em homenagem à santa padroeira dos paraenses.

Meu pai costumava estar entre os diretores da festividade. Por isso tomava conta da Barraca da Santa no segundo sábado da festa. Minha casa praticamente se mudava para lá. Mamãe orientava a cozinha. E à noite, eu perambulava pelo arraial acabando por entrar num cinema. Foi nessa época que vi “O Dia em que a Terra Parou”, filme que ficou na minha memória como se usasse fita durex.

O som do arraial dedicava musicas às pessoas que transitavam. Deu briga quando dedicaram à uma mulher o bolero “Senhora”(“Senhora/tu manchastes o nome/o nome do homem que um dia em teus braços feliz tentou ser.../ senhora, com todo o teu ouro/ de ti sinto pena pois não tens na vida nem Deus nem moral”.

Belém era pequena. Tinha o charme de cidade do interior. O transito era humano, as pessoas se conheciam, os assaltados eram raros e ladrões mesmo só os de quaradouro, ou “de galhinha”.

Não era de festejos pois eles quebravam a minha santa rotina, mas hoje sinto saudade do que lembro como uma forma de paz. Agora o clima é de guerra, a começar com  o transito. Viro Woody Allen em “Tudo Pode Dar Certo”, embora não ache que dê certo tanta merda atual.

 

 



Escrito por Pedro Veriano às 11h22
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Ride Pagliacci

Longe da opera de Leoncavallo a gente, no cinema, ria de tantos traídos pela sorte(não apenas pela mulher) e/ou vingadores anônimos da sociedade. Os grandes palhaços estão morrendo. Afora Chaplin, que deixou este mundo em 1977 e já não mais fazia rir como no tempo em que as “fitas” eram mudas, os seus comparsas de diversos países  desapareceram além das câmeras.

Quando eu via nos cinemas mais filmes do que os dias do ano (hoje nem que eu quisesse não podia arriscar tanto), os EUA tinham, por exemplo, Danny Kaye (o melhor showman que eu conheci). Eu não cito atores versáteis como Jack Lemmon, bons em comédias como em tragédias (“Se Meu Apartamento Falasse...” é a tragédia social do meio urbano). Os franceses tinham Fernandel, o “cara de cavalo”(fantástico em “O Carneiro de 5 Patas”). Os italianos iam à luta com Totó, o mestre feio, e Walter Chiari. Os ingleses, que tinham fama de não rir, botavam nas telas Norman Wisdom. Esses palhaços sucederam os heróis da comédia visual, o cinema em estado de graça que a partir de Chaplin e antes da extraordinária anarquia dos Irmãos Marx atacavam de Harold Lloyd, Buster Keaton, até mesmo Laurell & Hardy (e uma vez ou outra os imitadores Abott & Costello). Ah sim: tinha Jerry Lewis. Este ainda vive. Mas é um fantasma de corpo presente.

Norman Wisdom morreu este mês (outubro). Tinha 95 anos. Sua formula de fazer rir era ditada por uma expressão facial  econômica. Mas o resto do corpo se mexia. E a cara de pedra, “a la Keaton”, ajudava. Chegou a fazer um filme americano: “Quando o Strip Tease Começou”(The Night They Raided Minky’s/1972) de William Friedkin. Basta este exemplo de filme A para qualificar Norman como o desajeitado que dava tombos homéricos, lembrava o tipo que Donald O’Connor tão bem encarnou em “Cantando na Chuva”.

Aqui em Belém passavam lotes de filmes baratos com Norman Wisdom, distribuídos por J. Arthur Rank (primeiro vinham através da Universal, depois pela própria firma britânica). Eu não os perdia. Ria o bastante para suportar o pior da rotina de estudante (especialmente quando fiz o curso de medicina).

Hoje os ingleses apostam em Rowan Atkinson. É outra norma. O ator é expressivo, mas o tipo que ele criou é de cartoon. Se as gags são bem escritas ele funciona. Mas se é cercado de boa produção não possui a ingenuidade do seu velho colega (ou mestre, fica melhor). Por sinal que Atkinson está deixando de ser Mr. Bean, o tipo que lhe deu fama. Sente que cansou. Não sei quem ficará no trono dos galhofeiros. Se não aparecer substituto nós, cinemeiros,estamos fadados a achar graça, apenas,do que se diz sério, dessas aventuras histórico-mitológicas de grande orçamento, onde a piada é justamente a falta de piada. Ou o ridículo em overdose.



Escrito por Pedro Veriano às 15h05
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O Tempo do Farazinho

Por ironia eu estava no Mosqueiro quando morreu o Joseph Farah. Digo assim, pois o amigo morto fez um pouco da história dessa ilha. Ele e o irmão gêmeo Alexandre marcaram a década de 50 no cenário que a classe média fantasiava de um garbo capaz de compará-lo a um Monte Carlo ou Cannes.

A família Farah tinha representante na vizinhança de minha casa, na Av. S. Jerônimo (mais tarde Gov José Malcher) quando os gêmeos nasceram. Contam, eu não lembro nos meus 3 anos, que o Sr. Raimundo Farah, o patricarca, sofreu um acidente de carro na hora em que ia para a maternidade onde d. Lourdes, a mulher dele, teve as crianças. “-Nós começamos bem”, diziam os manos. Dessa fase infantil mamãe contava que de uma feita d.Lourdes procurou os filhos e não os encontrava. Estavam dentro da geladeira. Disseram: “-Estávamos com muito calor”. Uma pneumonia respondeu pela travessura. Aliás, é ainda no âmbito da geladeira que aparece uma das primeiras traquinagens da dupla. Tiraram carne do vizinho que estava ali para durar mais tempo e deram-na aos cães. Não era piedade lazarina: era gozação.

No Mosqueiro as historias dos Farazinhos chegaram a virar lendas. A troca de mobília de casas no Farol, a procissão de 6ª Feira Santa com trajes da ku klux kan, a “lambusada” de fezes nos corrimões do ônibus que levava as pessoas das  praias à vila em fim de madrugada, a troca de saco de pipoca por cocô também em ônibus, tudo era motivo de galhofa.

E em Belém a ação era intensa. No terraço do Grande Hotel (hoje Hilton) formavam um grupo que chamavam de Black Night, arquitetando trotes que ainda hoje são lembrados entre gargalhadas. Há o caso do europeu que foi desafiado em sua coragem para pular sem roupa o gradil do cemitério próximo ( o Soledade), momento em que os Farah saiam correndo com a roupa do sujeito indo esperá-lo numa banca do hotel. E que dizer do carnaval onde atiraram um porco para dentro de um clube judaico? E a postura no banheiro das moças, em baile de soçaite, vestidos de “negas malucas”?

Há tanto a dizer dos Farazinhos que certamente escapou dos livros que editaram. E posso dizer como testemunha ocular que os livros não fizeram jus a fama deles. Eu gostaria de ter filmado um pouco das travessuras quando os dois chegaram aos 70 anos. Não deu. Ficou na memória muito dessas coisas, relíquias de uma época em que ia com meus pais para a nossa casa na praia (do Farol,vizinha da casa dos Farah)e procurava fugir de meu egocentrismo, de minha educação burguesa.

A morte de José, ou Zé, é como um pedaço de um tempo que se esvai. Penso nesse tempo e vejo que os atores são quase todos lembranças. É a inexorabilidade da vida, aquela coisa de que tudo passa, tudo corre –embora Lavoisier dissesse que tudo se transforma e meu pai completasse dizendo que “nada fica, tudo morre”.
Se um dia a preguiça deixar que eu escreva minhas memórias vou dar espaço aos “gêmeos bagunceiros” que chegavam a cobrar ingresso para que a garotada espiasse, por um buraco na madeira, as meninas de sua casa tomarem banho. Claro que no Mosqueiro, em um período sem barracas de praia, sem violência, em compensação sem estradas e, creio que em ganho romântico,sem televisão. (Setembro 2010)



Escrito por Pedro Veriano às 14h44
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Silhuetas na Paisagem

O American Film Institut homenageou Ernest Brgnine, 92 anos. Ator em 200 filmes ganhou um Oscar por "Marty", neorealismo permitido por Holywood graças à firma de Burt Lancaster (Hetch-Hill-Lancaster). Um ator "pau pra toda obra", não necessariamente versátil. Seja como for iluminou minhas matinais e vesperais. Quem não recebeu isso e se partiu das telas da vida foi Patricia Neal. Voz rouca, nunca "sexy", podia virar filme sua própria história, perdendo uma filha de meses atropelada no carrinho de bebê e outra por doença. Ela propria enfrentou avcs, estado comatoso, recuperação quase total. Chegou aos 84. Na minha mente está a sua ajuda ao et Klatoo em "O Dia em que a Terra Parou" de Bob Wise(51).Era a dona de casa, mãe de um menino, corajosa por atender a um estranho que não era deste mundo- contra um namorado que pedia a cabeça do sujeito para faturar prestigio.

Esses artistas tiveram seu espaço na industria e na saudade de quem os viu. A vantagem do cinema é que sempre podem ser vistos, desde que a tecnologia preserve cada vez mais o que foi gravado em pelicula impregnada de acetato de prata.  Só no intimo do espectador é que nem isso é preciso. O circuito de neuronios transmite a gana do açougueiro solteirão Marty em namorar contra a vontade da mãe italiana, e a amiga do homem do céu, um novo Cristo no modo como é incompreendido neste insensato mundo. 

 



Escrito por Pedro Veriano às 09h58
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Feitiço nas Vilas

 

 

“Aprendiz de Feiticeiro” e “O Último Mestre do Ar” são filmes que se irmanam não só na mediocridade. A rigor são contos de fadas proibidos para maiores de 10 anos. Isto se a gente subestimar a garotada que aos 7 já é craque em computador.

“Aprendiz...”, da Disney & Jerry Bruckheimer, tem Nicolas Cage como o bruxo que se encarrega de guardar uma relíquia medieval (da idade dele) onde está presa a Fada Morgana, vilã das histórias do rei Arthur. Ele ainda está com cara de ....Nicolas Cage na Manhattan do final do século XX. Dono de um antiquário recebe a visita de um nerd que faz a maior bagunça na loja, liberando os malvados seculares. Este mesmo nerd será o aprendiz do titulo dez anos depois. E é ele quem vai enfrentar Morgana, não só para salvar o mundo (todos os heróis desse tipo de filme pretendem salvar o mundo) como resguardar um romance que data da infância.

              Cage é terrível. O filme dirigido por Jon Turtetaub é desses que de inicio já se sabe o fim. Quem vai a cinema para testar os efeitos especiais pode até gostar da brincadeira.Quem pede mais alguma coisa sai com cara de palhaço.

              O mesmo acontece com “O Último Mestre do Ar”. A vantagem, aí, é que se trata do “último”. Um guri avatar que defende os reinos do ar, da terra e da água contra o do fogo. Base de um desenho exibido pelo canal Nickelodeon em 2006. Assunto que fascinou M.Night Shyamalan, diretor que apareceu promissoramente com “Wide Awake”, “O 6° Sentido” e “Corpo Fechado”. Hoje, depois de quedas homéricas tipo “O Fim dos Tempos”(Hapenning), aposta nos blockbusters de verão, usando computadores para compor sua animação desanimada sobre lendas do arco da moça (são criações do pessoal que fazia o desenho). Não sei o que pensa Shyamalan, ainda dono de tudo o que faz (roteiro,direção até atuação secundária). Mas é claro que está indeciso.Resta aguardar seus próximos projetos.

              Esses feitiços em vilas nem de longe lembram Noel. Mesmo porque não balançam qualquer alvoredo.



Escrito por Pedro Veriano às 09h36
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Musica sem Fantasia

 

 

 

 

            “Allegro, non Troppo(Música e Fantasia/Itália, 1976) encantou-me há 30 anos. Foi um dos benditos lançamentos do Cinema I. Com um humor sarcástico entremeando animação para números musicais seria uma forma bem latina de remontar a Fantasia de Walt Disney.

            Hoje o efeito não é tão prazeroso. A comicidade perde para as chanchadas nacionais dos anos 50 e os desenhos não traduzem muito bem a música exposta. Uma exceção me parece “Valsa Triste” de Sibelius, um gato perdido nas ruínas de uma casa, sofrendo alucinações que lhe trazem imagens do tempo em que havia donos, havia comida, havia vida.

            A concepção de Bolero de Ravel a partir de uma garrafa de Coca Cola deixada por uma nave espacial lembra um filme australiano em que o mesmo objeto passa a ser adorado por aborígines como um deus. E a piada final, com o “produtor” que no inicio reclamava o fato de sua “fantasia” ter sido feita antes “por um tal de Frisney”, alertando que vai filmar “Branca de Neve e os 7 Anões”não dá  para sorrir. Aliás, o melhor de “Música e a Fantasia” são as vinhetas, como a do sujeito no pedaço de papel que pega fogo. E o recurso do casal que “se desenha” e voa para longe do “insensato mundo”.

            Muito pouca fantasia e pouco de boa música para pouco mais de hora e meia perseguida pelo enfado.



Escrito por Pedro Veriano às 14h50
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Luzia 70

 

 

 

 

            Inicio de 1957. Um amigo levou-me à casa de uma cartomante. Entre muitas informações sobre meu passado e meu futuro a mulher afirmou que eu casaria aos 24 anos. Ora, eu tinha 20. Que diabos de namoro e noivado seria este tão acelerado? E logo no meu caso, um tímido complexado de ser um patinho feio em lagoas de garotas da minha geração. Perguntei se já conhecia a futura esposa e a mulher, jogando com uma dama de ouros, disse que já. Aí eu não agüentei o riso. Como “já” se uma das curiosidades da visita era justamente saber quem me aceitaria num tempo distante?

Ela remendou: “- Se não conhece, está para conhecer”. E deu uma ficha que depois se encaixaria na garota que surgiu no meu caminho poucos dias depois. Mas o meu namoro e casamento é matéria para daqui a 7 meses quando deverei comemorar as minhas Bodas de Ouro. Hoje é outra festa: Luzia emplaca 70 anos. Ágil (e ponha ágil nisso), quase sem rugas, com um corpo que está longe de assumir velhice, apóia-se na demonstração de intelecto que não sugeria quando a conheci. No passado era a “dona de casa”, chegando até a ser costureira de noiva. Hoje é doutora, é aposentada da Universidade Federal do Pará, é jornalista veterana (desde 1972), tem um currículo que aposta com a sua dissertação de mestrado (mais de 700 páginas) um documento precioso da história local.

            Desses 70 anos eu vivi 53. Penso até que foi mais tempo. Está muito longe a minha vida sem a Luzia. O seu papel em meu destino assemelha-se ao que aconteceu quando eu comprei um computador em 1995. Ela viu a geringonça e afirmou que jamais mexeria naquilo. Não demorou e passou a me ensinar informática. Hoje amanhece adiante da tela recebendo as dezenas de e-mails e vasculhando o mundo que lhe diz respeito (e é cada vez maior).

            Ambiciosa certamente Luzia deixou o Reis do nome pelo meu Álvares, mas a majestade se manifestou como qualquer ser vivo que sai do ovo. Tanto que eu moro num apartamento em que ela é a dona, ou melhor, o aluguel está no nome dela (e se estou aqui é por culpa dela, pois jamais deixaria minha casa).

            Importante é que as mutações não nos afastaram. Ao contrário: nos uniram., Se antes eu era displicente, ou mesmo egocêntrico, hoje sou um companheiro-sombra, um marido que adotou uma luz, uma lanterna que não luzia, mas ilumina de forma a me valer os olhos. E os ouvidos, já que a idade me pesa na audição.

            Vivemos um casamento feliz. Procuro sempre que nos compreendamos e tanto assim que a cada amanhecer nos abraçamos como se nos encontrássemos depois de longa ausência. E mais: para onde um vai o outro se comunica dizendo”to aqui”.

            Tivemos 4 filhas que nos deram 10 netos. Uma família numerosa que sentimos agregada. Se a formula da felicidade ganha essas frações nós a encontramos. E só pedimos que o tempo nos poupe o quanto for possível. Somos o time que está ganhando e não queremos sair de campo. Mesmo jogando na prorrogação.

            Salve Luzia setenta. Ou 07 naquele planeta clone da Terra do filme “Odisséia Para Além do Sol”.(PV)

 



Escrito por Pedro Veriano às 11h23
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Iracma

 

 

 

 

            Faria 90 anos neste 2010 o cinema Iracema, depois chamado de Nazaré 2. Ficava na Pça. Justo Chermont, ou como se chamava no tempo em que ele nasceu, no Largo de Nazaré. Era um dos pontos de atração durante a Festa do Círio. Quem o construiu foi um cearense conhecido como Sargento. O nome Iracema, obviamente, foi em homenagem a terra dele. O primeiro filme que eu vi, “Branca de Neve e os 7 Anões” do grupo Disney, foi lá. Não sei bem em que ano, acho que em 1938 ou 39. Tive medo do escuro, preferi olhar a tela iluminada por trás da cortina na sala de espera. Queria a luz acesa. Na juventude fui muitas vezes ao Iracema ver faroeste, seriado, filme que a gente esquece na saída. Também foi espaço para namoro. Tinha sessão matinal nos domingos em ritmo de pré estréia.E deixou na história algumas exclusividades como sessões de meia noite. Eu não peguei esse tempo, mas conheci o Wilson Corrêa, o homem do linotipo em “A Província do Pará”, que fiscalizava os filmes da Metro e ia para a porta do cinema com um marcador somando o público. Na época, anos 30, as pessoas podiam voltar para casa, no final de sessão, sem medo de assaltos. E tinha condução de madrugada, como bondes.

            Nos 50 Severiano Ribeiro, quem já era o dono do prédio (comprou a empresa Cinematográfica Paraense Ltda em 1946) inaugurou aparelhagem nova da marca Simplex para concorrer na faixa de elite com o Olímpia. O filme inaugural foi “O Barco das Ilusões”(Showboat) da MGM. E a casa ficou exclusiva dos títulos do “leão” (Metro Goldwyn Mayer). Eram filmes caros, cobrados a 40% ou 50% da renda liquida. Mas atraiam multidões.

            A decadência, agravada com a TV, levou o Iracema a exibir pornô, seguindo o já ativo Ópera. Só em 1996 o terceiro membro da família Ribeiro achou que deveria reformar a sala e tentar filmes comerciais ambiciosas. Reabriu com “Batman e Robin”. Sessões lotadas. Interessante é que foram abolidas as portas laterais e só havia um espaço para se entrar e sair. Os bombeiros deixaram enquanto castigaram os cinemas 1 e 2 locais quando estreados.

            No novo século tudo acabou. O Olímpia já havia virado Espaço Municipal, escapando com isso de uma degola, e os dois Nazaré foram alugados pelas Lojas Americanas.

            Nesse ano dos 90, o Iracema merecia uma coroa de flores de seus freqüentadores. Eu mando a minha, imaginária. Mas de coração.V



Escrito por Pedro Veriano às 11h55
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A Salvação da Cinemania

 

 

            O DVD é a plataforma de onde se atira o cinéfilo na piscina do cinema mundial. Filmes como “Sobrevivendo com Lobos” e “Ágora” só alcançam os bugres (e a gente por aqui, a julgar pelo mercado de cinema se sente assim) em DVD. O primeiro ainda pegou carona na forma oficial através da Paramount. O segundo veio navegando na galera dos piratas, ou melhor dos corsários que fazem “download”de sites que oferecem imagens sem pagamento.

            “Sobrevivendo com Lobos” (Survivre avec les Loups/França, Bélgica, Alemanha,2007) é o drama de uma menina judia,de sete anos, que na Bruxelas de 1942 se vê longe dos pais, levados pelos nazistas, e foge de uma escola que a escondia, caminhando até a Ucrânia e depois de volta a Bruxelas, computando 3 anos de aventura no meio do mato, a maioria do tempo com lobos, chamando uma loba de mãe e um lobo de pai.

            O roteiro da própria diretora, Vera Belomnt, diz se basear num fato real. Mas em 2008 a cineasta contou que emprenhou a trama com  muita ficção. Não podia ser de outra forma. É absurdo acreditar que a pequena Misha (Mathilde Goffard) passou por tudo o que se vê. Aliás, a menina, ao fazer o papel, não soube muito bem o que estava fazendo. Brincou de vitima. E bem. Ganha o amor da platéia.

            Não importa, no entanto, a verossimilhança. Dentro do absurdo está um bom  cinema, uma história bem narrada, um artesanato correto (às vezes com toques de gênio) e um recado contra o anti-semitismo, ampliado para a incompreensão em geral, inclusive com a matança indiscriminada de animais selvagens.

            “Ágora”(Espanha, 2008) é de Alfonso Amenábar(de “Os Outros”). Conta como viveu a primeira mulher-astronoma, Hypatia de Alexandria. Professora filosofa, envolvida na discussão do sistema planetário desde Copérnico, pensando no desencontro matemático de órbitas circulares dos astros (ela descobre, por fim, a elipse), o argumento usa desses fatos históricos, ambientados na época em que o cristianismo assumia a face fundamentalista que hoje critica, como metáfora do próprio drama da personagem. Por ela tentar sempre ser diferente, por demonstrar que “pensa”, é esquartejada. E a relação do que se filmou com o que se sabe da história, é que Hypatia não mereceu a morte num abraço dada por um enamorado como se mostrou no cinema: foi retirada do coche onde viajava e cortada com cascas de ostras pela turba enfurecida (achavam-na bruxa). Ainda hoje há quem policie o pensamento. E Amenábar mostra isso com ares de superespetáculo o que espanta o ineditismo nos cinemas locais ( e mesmo no DVD oficial até agora).

            Rachel Weisz brilha. Mas o que me fez pensar vendo o filme é o papel de Cirilo(Sammy Sammar). O líder cristão que condenou muita gente à fogueira, foi canonizado (é D. Cirilo de Alexandria). Enquanto isso se queimou tesouros da biblioteca mais saudada do mundo antigo. Atrasou-se a ciência em nome da “verdade revelada” (ou do conformismo).  O filme ataca esse terreno perigoso com muita força. Sinto-me feliz em ter visto.



Escrito por Pedro Veriano às 10h48
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Todos Bem

 

 

                        Giuseppe Tornatore, cineasta italiano, é tido pelos críticos como o “signori” cebola, ou seja, um provocador de lágrimas. Seu “Cinema Paradiso” fez chorar frade de pedra. Mas o posterior “Estamos Todos Bem”(Stato Tutti Bene) fez chorar ainda mais. Marcello Mastroianni era o pai viúvo que percorria cidades italianas atrás dos filhos que não iam a seu encontro. Cada visita era uma frustração. O velho acabava aprendendo que a família do passado tinha passado. Este quadro de tristeza foi refilmado pelos americanos com o nome de “Everybody’s Fine”(Estão Todos Bem) lançado no Natal em cinemas dos EUA e no sudeste brasileiro logo no inicio deste ano (por aqui nada, somos sempre os esquecidos).Com direção do inglês Kirk Jones (de “Os Fora da Lei”) bota Robert De Niro como o pai angustiado que procura saber se a filharada está realmente bem – e só um filho dá problema e sai dos planos.

            Quem não segura lagrimas numa sala de cinema vai ter de levar a toalha. Na TV(DVD), os olhos molhados passam como problema da luz do aparelho. A verdade é que a coisa comove. E De Niro com seus quase 70 anos está bem melhor do que os tipos durões que encarna comumente.

            Mas se “Estamos Todos Bem” ainda está mal na distribuição paraense, continuando inédito, “Alice”de Claude Chabrol, filme de 1971 que não vimos até agora, chega em disco para as locadoras especializadas. Sylvia Kristal, a Emanuelle, não perde a chance de mostrar-se pelada, mas desta vez ela não é o “corpo” da trama. Dedicando no trabalho ao colega Fritz Lang, Chabrol homenageia Lewis Carol chamando a sua heroína de Alice Carol e levando-a a um “país de maravilhas” que na verdade são aterradoras (e as encontradas pela Alice do clássico literário não deixam, também, de ser). Uma esposa confessa não aturar mais o marido e sai de casa dirigindo o seu carro. Depois de muita estrada chega a chuva e uma pedrada no pára-brisa. Vê-se numa casa soturna, recebida por um velho gentil (Charles Vanel) e logo ciente de que aquilo é uma prisão. Não pode fugir, nem pode perguntar por onde anda. Quem aparece reforça um enigma. E mesmo quando pega uma brecha e acelera na estrada, o caminho da volta é fatal.

            O filme tem clima. Assusta. É o Chabrol que realmente se acerca do Lang de “O Segredo da Porta Fechada”. Mas hoje em dia a gente pensa, primeiro, no M. Night Shyamalan de “O Sexto Sentido”.

            Cinema em DVD é a saída numa programação que privilegia blockbusters. Nas prateleiras oficiais, nos “downloads” diversos, a mina é farta. Só assim a gente se atualiza em cinema.



Escrito por Pedro Veriano às 15h35
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Cinema & Emoções

 

 

 

 

            Há quem pense que em cinema não se deva chorar. Rir pode, chorar não. Chaplin discordava. Suas comédias tinham rabos de tristeza que intercalavam lágrimas com gargalhadas. O que dizer de “Luzes da Cidade” quando depois de se passar hora e meia rindo de Carlitos para,no final, vê-lo ser reconhecido pela ex-ceguinha e, num close que se compara com a Gioconda de Da Vinci, rir e chorar ao mesmo tempo?

            Certo: é mais difícil fazer chorar. Stan Laurell(O Magro) e Oliver Hardy(O Gordo) provocavam risos quando um deles caia desastrosamente ou o outro, o provocador dos desastres, fazia uma cara de bobo, soltando o que a gente costumou chamar de “riso amarelo”.

            “O Oitavo Dia”(L’Huitième Jour) é um filme que faz chorar. O cineasta belga Jacó Van Dormael é mestre nisso como provou antes em “O Homem de Duas Vidas”(Totó, le Hero). Focando a amizade de um mongolóide com um executivo cheio de problemas familiares ele suga as lágrimas da platéia com muitos closes do ator Pascal Duquenne, reconhecido em Cannes (ganho a Palma de Ouro junto com o seu comparsa Daniel Auteill), especialmente quando ele lembra a mãe, já falecida, e se ouve o cantor mexicano Luis Mariano cantando “Mama, la plus belle du monde...”   

            Uma ala da critica detesta o filme. Em Cannes pragujeou quando do prêmio aos atores, afirmando que Pascal era mesmo um excepecional e no filme fazia o seu próprio papel. O diretor respondeu que os críticos tentassem tirar dele a mesma coisa. Não era fácil. Talvez mais difícil do que exigir de um ator comum. Não importa. Em “O Homem de Duas Vidas” o final, com as cinzas do herói caindo de um avião e ouvindo-se a sua voz festejando o vôo é um momento sublime, uma das coisas que fazem a gente gostar tanto de cinema.

            Naturalmente há quem trate dramas de forma tão “seca” que as lágrimas são engolidas pela razão. Em “O Amor”(Szerzelem/Hungria,1971) de Károly Makk, lançado agora em DVD no Brasil, assiste-se ao fim de uma quase centenária, o desvelo de sua nora e a espera que esta guarda do marido, um militante político, preso há alguns anos. O filme simplesmente constata a morte da macróbia e a chegada do preso. Nada de acréscimos além do que se vê da rotina da jovem que trata da sogra com carinho e têm esperanças de abraçar o seu amado. Mas se o filme é seco nem por isso foge do coração de quem vê. Deixa um convite à análise da situação. Outra coisa. O que não acontece com melodramas assumidos, inclusive um do próprio Chaplin: “Casamento ou Luxo”(Woman  of Paris). Nesses casos, há um enredo destinado a sensibilizar quem o assiste. O cinema mudo vivia dessas reações emocionais: ou se mijava de rir com os Keystones Cops e os tantos cômicos (que o amigo Syn de Conde chamava de “palhaços”) ou se chorava de homens e mulheres desgraçados como pode se constatar agora, em DVD, no raro filme de John Ford “4 Filhos”(4 Sons).

            Se alguém no cinema risse de uma comédia que eu fizesse eu ficaria muito feliz. E iria às nuvens se também chorasse. Por isso é que Carlitos virou o símbolo dessa arte. Cutucar a alma com imagens projetadas é um  tipo de mágica que os mágicos em sua maioria desconhecem sem o uso da hipnose, ou seja, sem a pessoa em sua perfeita consciência. (PV).



Escrito por Pedro Veriano às 10h28
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Italianos

 

 

 

            Nos 50 eu saia de casa com moedas no bolso da calça certas para pagar ônibus e ingresso de cinema. Ia muito a Moderno, no Largo de Nazaré, onde passavam filmes europeus, especialmente italianos. O exibidor alugava da Art Filmes para suprir os dias que a RKO deixava em branco. E nesse tempo eu vi muito de Steno, Monicelli, Zampa, todo o time do neo-realismo italiano, e a velha guarda francesa, depois substituída pelos chatos da nova onda, especialmente Godard (gostava de Truffaut e Chabrol mas nunca embarquei no navio de Jean Luc Godard, o cineasta rebelde que no entender do critico Moniz Vianna, ativo então, filmava duas pessoas conversando nas cabeceiras de uma mesa pedindo ao cameraman que focalizasse o meio da mesa.

            Hoje revejo em DVD alguns filmes desse período, especialmente os italianos. De Steno vi agora “Coisas da Cosa Nostra” que já nasceu fora do tempo, ou seja, nos anos 70. Mas vi um exemplar da época: “O Médico e o Charlatão” de Monicelli. E vi “Europa 51” de Rosselini. Um ponto triste na alegria geral. O filme de Steno é hilário. O de Monicelli nem tanto. E o de Rosselini digno de uma lágrima.

            Rosselini via na reconstituição da Itália uma sociedade cruel. Ingrid Bergman era uma dama da sociedade que perdia o filho e decidia ajudar os pobres. Uma cristã que um padre interrogava achando-a maluca. Afinal,acabava no hospício. E todo mundo achava correto banir essa pessoa que tentava mudar o mundo como um novo Francisco de Assis.

            A fotografia de Aldo Tonti mostra uma Roma nebulosa, como vê a personagem de La Bergman. Giulietta Masina, antes de ser madame Fellini, faz uma faveladas mãe de 4 filhos que não vê seu homem bote tempo e ganha um emprego da mulher rica. Mas no dia de estréia no emprego ela marca encontro com um rapaz que pode ajudar sua família assumindo o lugar vago de companheiro. Bergman a substituiu para salvar o lugar. É constrangedor ver a senhora que de trabalho só tinha em currículo uma passagem por jornal quando solteira, vendo rolar a máquina que pinta sacos de sarrapilheira.

            O filme de Rosselini termina com um plano da boa senhora da janela de seu quarto na casa de saúde (ou de doidos) acenando para os pobres-diabos a quem ajudou. Ela lança um beijo para a câmera. Para nós, que vemos uma critica feroz a um estado de coisas.

            Engraçado é que “Europa 51” foi mal visto pelos críticos de 52. Sessenta anos depois é obra-prima. Antes tarde do que nunca. (PV)



Escrito por Pedro Veriano às 15h59
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Entre a História e a Saudade

 

 

 

 

            Quando eu vi pela primeira vez “Aviso aos Navegantes”, cursava o ginasial do Colégio  Moderno.A repercussão do filme, na minha turma. eu qualifiquei de explosiva. Um colega, meu amigo até hoje, Agostinho Barros, imitava Oscarito com  perfeição e aproveitou o filme para reproduzir falas como “...é tanto tango, tanto tango, eu quero é samba, gafieira, trabalhar em Madurera, passear em Niteroi, sabe lá o que é isso ?”. Ele era fã declarado do comediante indispensável nas melhores chanchadas (como a critica chamava os musicais carnavalescos em tom pejorativo). Quando Oscarito veio à Belém com uma de suas peças (ele e sua família também faziam teatro),não se conteve em ir vê-lo no nosso Da Paz e foi ao camarim cumprimentá-lo. Eu fui de reboque. Lembro do ator limpando a maquilagem e agradecendo os nossos cumprimentos. A gente vivia o clima de festa do interior que esse tipo de cinema endeusava. O mundo parecia ingênuo embora tivesse saído de uma guerra sangrenta. Mas aqui no Brasil, especificamente em Belém do Pará, as coisas se comportavam de forma cavalheira. No carnaval existiam as “batalhas de confeti” nos bairros, quem tinha carro fazia o corso na Praça da República, não havia medo de sair  na rua de sujo com a cara pintada sem ser protesto politico-partidário, os romances tinham campo nas sessões de cinema, o sexo antes do casamento era copyright da zona do meretrício, os denominados palavrões eram restritos à área masculina (assim como o fumo), enfim, qualquer deslize de comportamento ganhava coluna de jornal (havia a especialista “Vozes da Rua” da Paulo Maranhão na “Folha Vespertina”), e o vicio maior era o álcool, embora o porre ganhasse status em canções, peças e filmes como “O Ébrio” de Vicente Celestino.

            Quando eu constato que “Aviso aos Navegantes” está fazendo 60 anos estremeço. Meus amigos do tempo da estréia do filme, assim como meus parentes, minha casa,a maioria já se foi. E o tempo que passou parece ter sido acelerado,hoje se falando de “antigo” com a data  dos anos 80. Mas nos 80 esta chanchada que ora se reapresenta já somava 30 anos. O ator Anselmo Duarte morreu ano passado depois um período  com Alzheimmer. A sociedade mudou tanto que a História com “h” maiúsculo é mais uma anedota. E se o riso volta, volta embalado em saudade.Talvez os jovens de agora nem cheguem a rir, ou a entender o que se queria que fizesse rir. Mas quem viveu o período da ação filmada sente duas vezes a emoção, ou seja, torna a achar graça até por um dia ter achado. É um encontro com o passado que irmana risos e lágrimas na constatação de que aquilo passou. Foi engraçado, mas passou.

            Cinema é uma arte mágica por renovar emoções. Na literatura você constrói no cérebro as imagens do que lê. Na musica você lembra o que a melodia construiu, Mas  no cinema são as imagens que reaparecem e testam a sua memória como um documento vivo. Tudo que está no filme esteve. E já foi conjugado no presente do indicativo. Um milagre rever seres humanos que já não são. Essa é faculdade primordial de uma técnica que sublima valores. Por isso, pela poesia resultante do reencontro, as chanchadas escapam da critica feroz. São aquelas silhuetas na paisagem faladas noutro filme.

            É por esse processo de revitalização do cinema que se deve dar valor aos técnicos que restauram filmes antigos. Eles são os doutores do tempo. Merecem os aplausos de todos os que gostam dessa arte edificada por tanta gente, dos Lumiére a Edison,de Daguerre aos computadores modernos.

            Aviso, portanto, aos novos navegantes: fiquem o leme na direção de onde vai passar o filme sessentão. É o baú dos ancestrais.(Pedro Veriano)



Escrito por Pedro Veriano às 16h51
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INICIO DE ANO

O meu melhor filme de 2009 foi "Gran Torino" de Clint Estwood. Logo atrás dele a animação "Up". Este ano que se inicia, vejo "Lula, O Filho do Brasil", um "reader's digest" do livro de Denise Paraná. Na cabeça está o melhor do apagar das luzes do ano passado: "Avatar". O bastante para James Cameron, o diretor, tornar gritar do tombadilho da glória que é "o rei do mundo". Neste janeiro contabiliza mais de US$1 bilhão. Nenhuma sena dá tanto.

Sobre o filme de Fabio Barreto eu escrevi e transcrevo para este blog primeiro e mais intimo:

 

 

BIOGRAFIA READER’S DIGEST

 

 

            “Lula, O Filho do Brasil” (Brasil,2009) baseia-se no livro de Denise Paraná, um best-seller que fez muita gente derramar lágrimas. O roteiro de Fernando Bonassi (que fez o de “Cazuza” e “Carandiru”) ganhou um tratamento de superprodução nos moldes nacionais, com uma direção de atores a cargo de Cibele Santa Cruz, uma direção de segunda unidade(Claudia Castro) e uma senhora equipe de tecnica. Quer dizer, Bruno Barreto,o diretor, tratou de ministrar as seqüências para que a edição, chefiada por Alexandre Palo, trabalhasse. Mesmo assim, mesmo com todo esse cuidado, o filme não emociona nem esgota o assunto.

            A história do atual presidente é potencialmente emocionante. Menino pobre do agreste, viaja 15 dias de “pau de arara” para Santos seguindo uma carta forjada do irmão em nome do pai, e na terra da garoa passa sérias necessidades, valendo-se da coragem e persistência da mãe, dona Lindu (Gloria Pires), que chega a desprezar o convite de uma professora em ficar com o garoto por adoção e persistir, por sua conta,na tarefa de instruí-lo, levando-o ao SENAI onde ele cursa a formação de torneiro mecânico.

            O roteiro escorrega no mesmo chão liso que fez escorregar tantas cinebiografias.Tudo é estereotipado, com personagens bons e maus sem hiatos de duvidas ou transgressões. E o tempo cronológico é acelerado com vistas ao lado sentimental da trama, pouco dizendo de como o jovem Luís consegue ser um orador fluente, um político “nato”. Essa faculdade de se expandir em discursos populares é jogada sem qualquer análise. É como se o ato de reclamar desmandos de seu sindicato fizesse de Lula um reivindicador capaz de comunicar as suas idéias com multidões em falas que emocionam mesmo que não sejam embasadas em termos técnicos (como econômicos). Um prodígio de intuição que não se mostra na gênese.

            A lição do roteiro é de que a vida forja o herói. Mas como forja? Imagens do jovem operário que se casa e perde a mulher durante o parto de seu primeiro filho, depois o conhecimento, namoro e casamento com outra mulher, são detalhadas enquanto não se toca como o sindicato dos metalúrgicos no tempo de ditadura militar começou a ser oprimido, como os operários foram chamados de comunistas numa generalização que levava muita gente aos porões do DOPS e suas torturas, enfim como as reivindicações salariais começaram a ser tratadas seriamente, ensejando a histórica greve do ABC paulista, fato que estremeceu o governo Figueiredo. Resumindo, como foi a história do Brasil nos anos 70/80.

            Tudo no filme é simplificado ao extremo. Não fosse a concorrência de atores competentes como Rui Ricardo Dias, que faz o Lula, a coisa se encaminharia para um melodrama em que a política seria um elemento de construção e não um episódio histórico.

            Mas apesar desses pesares, “Lula, o Filho do Brasil” é o melhor que fez o diretor Fabio Barreto. A mim pareceu melhor do que o seu “Quatrilho”, candidato a Oscar. O que machuca é que o assunto renderia muito mais. E sem pressa. Por que fazer o filme agora? Não seria melhor esperar mais um pouco e tratar de Lula depois de deixar o Palácio do Planalto? Assim não seria preciso o prólogo em que se jura não ter sido empregada nenhuma verba de entidades oficiais na produção.

 



Escrito por Pedro Veriano às 11h49
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