Poeira de Saudades

 

 

 

            Quando eu era criança ia ao cinema Poeira para ver seriado. Mas por lá eu vi “Jacaré, O Assassino do Amazonas”, uma das aberrações que estrangeiros fizeram no Pará. Lembro de uma briga do ator&caçador Frank Buck com um jacaré empalhado (depois soube que foi cortesia do museu Goeldi). A platéia gostou. Pagou para rir de si mesma. Também na mesma poeira vi “Obrigado, Doutor”, melodrama de Moacyr Fenelon em que Rodolfo Mayer matava Lourdinha Bittencourt e ia pro mato caçar outra mulher. No tempo da festa posterior ao Círio, ia muito ver o pessoal do rádio e da Praça Tiradentes, do Rio. Também era gente de chanchadas. Vi a Violeta Ferraz escandalizar os pudicos de então (anos 50) cantando “Picadura”(Pecadora). Era uma festa. Depois disso, em 1956, o festival cinemascope da Fox virou uma batalha. Para ver “Demetrius, o Gladiador” meti-me num empurrão grotesco. O porteiro avisou que ia largar uma patada em quem forçasse a entrada. Mais adiante no tempo, peguei a namorada numa quermesse e fugimos para ver “Sete Cidades de Ouro” no mesmo cinema. O que era o filme? Uai, passou filme?

            Junto do Poeira, rebatizado de Nazaré 1, havia o Iracema. Minhas matinais de domingo naquele espaço eram sagradas. Seriados como “Marte Invade a Terra” viravam assunto no colégio. Vesperais com Durango Kid empolgavam quem só exigia boas porradas – mesmo sem cair chapéus.

            O amigo já no outro mundo Wilson Corrêa, que me ensinou jornalismo na finada “Província do Pará”, era fiscal da Metro nos anos 40. Contava-me das sessões de meia-noite no Iracema. Ninguém pensava em assalto na volta para casa às 2 da matina. Belém era calma, a ponto de ladrão de galinha merecer corpo grande (letra maior) em coluna policial.

            Este ano começou sem esses cinemas. A noticia oficial é eu fecharam para reforma. Quem vai reformar? O sr.Severiano Ribeiro Neto ? Se ele ainda crê (ou se algum dia acreditou) em Belém, milagre pode acontecer. A bola de cristal que vejo espelha mais um espaço vazio, mais cinemas que foram recantos de amores, de sonhos, de expectativas, das mais variadas emoções.

            A cidade ficou apenas com 3 salas no centro. E 3 alternativas que sabe Deus como funcionarão.

            Vale a piada de um dia um garoto chegar em casa e dizer que viu um filme do tamanho de um poste. A mãe dá-lhe um tapa pela mentira. Nenhuma televisão vale um poste. Apostem nisso aí.