Chamas que Não Se Apagam

 

 

 

            Nos últimos anos da década de 50 a moda em cinema,nesta Belém do Grão, era os melodramas da Universal International dirigidos pelo dinamarquês Douglas Sirk(1900-1987). Lembro de que organizei um debate no Colégio Santa Rosa, então só feminino, exibindo o filme “Amanhã Será Tarde Demais”(Domani e Troppo Tardi) de Leonide Moguy. Comigo foi Orlando Costa, ex-dirigente de cine-clube mais tarde ministro do TST. No fim da sessão houve um debate e as alunas em coro elogiaram os filmes de Sirk, especialmente “Sublime Obsessão”(Magnificent Obsession) em detrimento ao trabalho de Moguy  premiado em Cannes. Eu, particularmente, detestava isso. Mas no meio dos chorosos títulos em que Rock Hudson ensinava como não se deve ser ator, gostava muito de “Chamas que Não se Apagam” (There’s Allways Tomorrow), exemplar em preto e branco feito em 1956.

            Revi e confirmei o gosto. O filme chega a ser genial em certos momentos. Um ficou: Fred McMurray faz um industrial de brinquedos que se sente (e é) desprezado pelos familiares (mulher/|Joan Bennett e filhos) e encontra uma colega que não vê há 20 anos (Bárbara Stanwyck). Ela agora é modista famosa.Os dois passam horas falando do passado. Mas aos olhos dos outros é um namoro. O filho mais velho acha que o pai está pulando a cerca. Passa a detestá-lo (como se demonstrasse algum amor por ele). Quando a colega vai jantar com a família o menino encabeça uma demonstração de desprezo. Vendo que está estremecendo um lar, a modista chama o garoto, conta o que foi, é e faz, e vai embora. Na seqüência que me parece fantástica, um robô de brinquedo está sobre uma mesa e sai andando em direção à câmera. Fred está de costas perto da objetiva. O robozinho anda até cair. Nada de explicações.O plano seguinte é de um avião passando alto e o industrial olhando para ele. Dentro do aparelho, Bárbara chora. A vida continua.

            Um filme delicado que não emplacou. Ele justifica a preferência que Fassbinder tinha para com o trabalho americano de Sirk.