Apocalipto

 

 

 

            O apocalipse maia segundo Mel Gibson é um filme de ação bem feito. Digo assim pela qualidade artesanal. Não é fácil controlar centenas de extras e atores não profissionais (ou, se for o caso, de pouca experiência).

            Mas o império que existiu no sul do México antes de Colombo (ou melhor, de Fernão Cortez), não era tão primitivo segundo se sabe pela arqueologia. Os maias possuíam um calendário com especificações de fenômenos astronômicos. Não se espantariam, portanto, com um eclipse do sol.

            O que parece certo, no roteiro em que o próprio Gibson ajudou a escrever, é o fato de se arranjar nômades vizinhos para os sacrifícios e o trabalho escravo. Vale dizer que o herói da história, Jaguar, é tão provável quanto um Spartacus tímido.

            Mas não sou eu o critico azedo que vai jogar o filme fora por achar que o realismo estampado na linguagem não é seguido do ponto de vista cientifico. Não olhei para o relógio nas duas horas de projeção nem senti a poltrona na minha coluna pouco alcochoada.

            “Apocalipto” é o tipo do cinema que divertia a mim e aos moleques outros que nas tardes de algumas segundas-feiras ia ver, no finado Cinema Moderno,todos os episódios de um seriado, artimanha sábia do exibidor de então, mais tarde o amigo Victor Mattos Cardoso e seu sócio, como ele médico, Arthur Lopes.

            Ah sim: o ator-cineasta está construindo uma filmografia pousada na violência contra a pessoa. Uma coleção de martírios. Foi assim que viu os últimos dias de Jesus na terra, foi assim que viu Wallace, o herói escocês. No compasso, Gibson voltará filmando mais mártires. Desde que esses mártires apanhem muito.