Aculturados
A garotada do meu tempo dessa idade brincava de faroeste. Um garoto corria atrás de outro, ou uns garotos atrás de outros, e no encontro puxavam seus revolveres de brinquedo ou simplesmente eriçavam o dedo indicador dizendo bem alto: “Camone boi”.
Ninguém sabia falar inglês. Repetia o que parecia ouvir nos filmes que acompanhavam os seriados, aqueles com cow-boys almofadinhas, de Charles Starret,.o Durango Kid, a Roy Rogers, o vaqueiro cantante.
Nossos pais não repisavam a cultura anglo-americana. Preferiam a francesa, herdada dos pais deles. Como francês não vendia valentia, o que era moda passava por uma cerca elegância, e as frases corriam cheias de neologismos como garção (garçon), chofer (chauffeur), patinete (brinquedo para se deslizar sobre uma tabua e duas rodas),ou simplesmente tur (tour).
Mas os ingleses chegaram antes com o futebol (foot-ball), e aqui em Belém trocando o cais do porto (Port of Para), chamado de porto-ofe, pela semente de seringueira.Ah sim: deram-nos também os primeiros telefones (Para Telephone) e energia elétrica (Para Eletric). Santa goma elástica !
A cultura amazônida ficava em histórias “de meter medo”, como a da Mula sem Cabeça, da Matintaperera, do Curupira, e o que Monteiro Lobato divulgou, do Saci ao telescopia de bambu, onde não se falava dos nós interiores que limitavam o tamanho da luneta.
Seria interessante uma observação demorada sobre a invasão cultural que sempre atingiu a terra da gente. Talvez por isso eu às vezes me sinta estrangeiro sem nunca ter saído daqui. Fica no inconsciente uma “edição” de fora, como se “lê” um filme além das legendas. E se estranha quando essas legendas não aparecem.
Escrito por Pedro Veriano às 16h45
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