Desejo e Reparação

 

 

            “Desejo e Reparação”(Atonement)é mais um filme que discute verdade e mentira. No recente “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho viu-se isto: as pessoas contam histórias que podem ser inventadas e atrizes representam essas mesmas histórias. No caso de “Desejo..”, uma menina de 13 anos escreve peças de teatro e expande a precocidade na direção do namorado da irmã mais velha, um rapaz da classe operária que se vê em ascensão. Nesse tom a gente vê por ela boa parte do filme. De uma feita a alusão é explicita: ela vê a irmã como nua defronte do namorado, saída de um banho (involuntário) em um chafariz doméstico. Volta-se a seqüência em planos mais próximos e observa-se que não é bem isso. Através dessa personagem, especialmente na 1.a fase de sua vida, o filme caminha em primeira pessoa mesmo sem narração off explicativa. Depois a garota é vista mocinha, como enfermeira durante a 2ª,guerra, e uma realidade assume o primeiro plano, Uma seqüência sem corte focalizando a Retirada de Dunquerque é significativa dessa ruptura. Já velha, a mesma personagem confessa, numa entrevista de TV, o mal que fez aos outros. Mas nessa volta critica ao principio ela também diz que está morrendo, que escreveu seu ultimo livro como autobiográfico, que sente o mal que causou aos próximos. Resta ao espectador discernir se é verdade ou se está na fabula do lobo que o menino fingia ver e quando viu não se fez acreditado.

            Sempre inteligente, o filme pode ser absorvido como um melodrama. Não deixa de ser, mas isto só engrandece o conceito de uma literatura vitima de preconceito.