Antes que seja tarde

 

 

 

 

            Manoel, meu cunhado, pegou uma bolada na cabeça e chinou. Numa tomografia viu o “galo” interno. Só não pifou de vez porque soube que tinha cérebro (e para mim foi, realmente, uma surpresa). Mas ele passou a me perseguir: “-Pedrinho, vai ver “Antes de Partir”. É um filmaço!”.

            Custo a ir a cinema no limite da cidade. Fui para atender ao amigo. E vi um misto de comédia e melodrama em que os personagens resolvem viver a vida que se esgota segundo prognósticos bem alicerçados. Um dos absurdos é saltarem de pára-quedas num intervalo de dores. Mas o que interessa é o recado de que se deve viver enquanto é tempo. E como cada um entende o verbo de um jeito, viver para os tipos interpretados por Morgan Freeman e Jack Nicholson é se aventuras mundo afora, terminando por se enroscar na família, o último carente dessa vantagem.

            Não me arrependi de ter ido ver o filme. É coisa que critico detesta, mas é sentimentalismo que desafia a frieza que a gente adquire com um embasamento cultural.

            Eu, antes de partir, queria muita coisa. Coisa material, como uma TV de 40 ou mais polegadas, e passar dias e dias na minha praia de infância, a do Farol, no Mosqueiro. Creio que o Manoel pensou aasim, apontando para outro espaço. Mas o fato de sonhar já é o bastante. Suaviza dores que porventura cheguem. A vida, na verdade, é curta para tanto que se pede dela. Não pedir é não querer, é se acomodar. E se o filme não é melhor é porque se acomoda em clichês para atiçar nossas lágrimas. Uma armadilha romântica.