Viagem ao Centro da Terra

 É Preciso Ser Criança

 

            Para ver “Viagem ao Centro da Terra”(Journey for the Center of the Earth/EUA,2008) sem o recurso da 3ª, dimensão que motivou os produtores, é preciso, primeiramente, ser criança. Não que você vá tomar aquele doce veneno de filmes como “Quero ser Grande” (com efeito retrógrado), mas simplesmente que se deixe levar pela memória do tempo em que não reclamava as salas quentes de cinemas de rua, abanava-se com um gibi comprado de segunda mão ao lado da bilheteria, e não se importava em saber que mocinhos e mocinhas enxugavam roupas em segundos, não tiravam a maquilagem nem depois de um banho de lama, e simplesmente mostravam-se indestrutíveis. Tudo isso em troca de um simples prazer, aquela coisa de necessitar de um herói como a Tina Turner cantou no último filme da série “Mad Max”.           

            A “Viagem...” mostrada aos paraenses, sem relevo de imagem, é uma dessas comédias involuntárias que fazem a vez de remédio contra o tédio. Penso que é melhor ver Brandon Fraser correr de um dinossauro do que se meter num desses engarrafamentos de balneários em tempo de férias escolares.

            O que o filme conta, pretende ser ou acaba sendo, é, sobretudo, um comercial pai d’égua do livro homônimo de Jules Verne, aquele que eu, você e o amigo mais próximo leu quando “miúdo”. Sem ser ilustração do texto desse livro, coloca um exemplar nas mãos dos principais personagens com anotações que ajudam na procura de um cientista desaparecido. Tem um momento que um garoto reclama: “Por que eu não li este livro?” Bom efeito: o moleque da platéia corre para ler (hoje é difícil deslocar um menino ou menina de JK Rowlins para Jules Verne).

            Direção mecânica de um cavalheiro chamado Eric Berg e interpretações de quem se diverte trabalhando (às vezes até mais de quem  vê o trabalho).

            Criança perdoa até o chute de uma sepultura sem coveiro. (Pedro Veriano)