4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
Faz-se cinema de calhamaços literários como também relatórios de fatos. Simples fatos. “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” é um fato. Uma jovem grávida quer abortar. Não interessa quem a emprenhou o que diabos pense de ter um filho. Sem parentes para cuidar disso, apelas para uma amiga. É esta amiga é quem vai providenciar tudo: do “fazedor de anjos” ao quarto de hotel que servirá de enfermaria. Claro que a trabalheira corre em um lugar onde aborto dá em cana. A história se passa na Romênia de Nicolau Ceausesu, ditador romeno da linha vermelha. Lá, na época dele (anos 80), interromper gestação era como tirar de cena um “camarada” a prosseguir com o regime. Nem precisava consultar a igreja.
O “aborteiro”, que nada tem de médico, é um sujeito extremamente grosso. Sabe o perigo que corre na “profissão” e só trabalha com dinheiro em caixa. No caso da personagem do filme, ele acha uma tarefa por demais perigosa (e é), e pede além da conta. Afinal, um feto de quase 5 meses é uma criança com sistema nervoso esboçado, valendo a sua morte como um assassinato.
Todo o filme é o caso em si. A amiga passa para o papel principal até quando leva o feto para jogar no lixo mais distante. Fosse um filme de Hollywood e as suas impressões digitais no lençol que envolve a criança (e é criança) seria apurada e os “medical detectives” a perseguiriam e ganhariam a parada. Mas não interessa ao diretor Christopher Mungui o crime e o castigo. Basta o crime. A sua detalhada exposição já implica num castigo. Quando eu saí do cinema eu disse que aquilo era um “anticoncepcional”: quem vê não vai querer engravidar e se o fizer não vai interromper o ciclo.
Frio ao extremo, com a câmera ora fixa (na maioria dos planos) ora movendo-se na mão (por corredores), quase sem closes e sem musica, é um cinema que se mostra longe do espectador embora essa posição física implique numa participação afetiva pela própria ausência de emoção.
Ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Sabe lá como atuou em corações e mentes do júri. Um exemplo de cinema raro, do país produtor à linguagem e abordagem. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 16h29
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