L[agrimas Caninas
Anos de cinemania não tinham me ofertado a decepção e ir a um cinema e não entrar por causa da lotação esgotada. Aconteceu quando eu fui ver, despreocupadamente (pois não esperava bulhufas do filme), "Marley e Eu"(Marley & Me). Como sou teimoso, repeti a dose. Saí de casa pouco depois do meio-dia de uma simples 3ª.feira e consegui ingresso (folgado) para a sessão de 12,50.
Entrei na sala de projeção indagando a mim mesmo o que é que esses novos filmes têm para dar tanto público. Claro que na qualidade de fã desta artindustria gosto de ver casa cheia. Nessas horas a gente tem um pouco de Hemmingway: aceita que os sinos possam a dobrar em nosso favor.
À saída compreendi o motivo do fascínio que mais um filme cachorro está fazendo desde o seu porto de origem. Falta violência. E a ausência de violência também faz a fatura de "Madagascar 2" e, de certa forma, de "Crepúsculo", onde o violento está a serviço da fantasia ou do que antes metia medo(hoje vampiro é namorado feloz).
Owen Wilson, um dos "penetras bom de bico", ou seja, um cara enjoado que me pareceu gêmeo de Jason Biggs e Adam Sandler, faz um jornalista que ao se casar adota, junto com a mulher (Jennifer Aniston), um cachorro. Seria o "trailler" para quando chegassem a ser papai e mamãe. Mas logo percebem que o bicho requer cuidados de super-herói, especialmente se for de uma raça como a labrador (chega a 50 kg de peso).Desarrumando a casa e metendo medo quando chega o primeiro bebê, Marley acaba conquistando os donos. O filme trata do casal, da prole, do au au, da profissão do patriarca e também da matriarca, e ainda de uma ligeira rixa entre marido e mulher na fase de DPP (Depressão Pós Parto). Nada de aterrorizante, nem mesmo o fato de haver assaltos a mão armada nas casas vizinhas (tão nosso isso aí !...). Narrando como bom contador de história, David Frankel ("O Diabo Veste Prada") vai até à morte do animal. Aí o filme, com base num "best-seller" de amplitude internacional, Explicita um quadro melodramático para derreter corações moles. Há quem saia do cinema lagrimando. OK, Wilson é canastrão que passa anos de vida de seu personagem com a mesma cara, o enfoque é demasiadamente domestico para muitos paladares, mas o cachorro está longe de ser um "salvador da pátria" como seus ancestrais (Lassie, por exemplo) e não dá um só golpe de herói nas aventuras (?) familiares. Mas por ser um filme sem emoções, sem parentesco com os "thrillers" e sem apavorar quem quer que seja (exceto os que exigem obra-prima à la carte) é um programa divertido. Pelo menos eu não olhei para o relógio.
O cinema de amenidades está longe de ser desprezível. Quando não é (e isto é importante) chato. E "Marley" é chato. Mesmo para quem não tem cachorro em casa. (Pedro Veriano).
Escrito por Pedro Veriano às 16h18
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Malas Festas
2009 começou diferente para mim. Entrei o ano às escuras, até gostando do blecaute no Mosqueiro, e em seguida não entrei num cinema porque a sessão estava lotada. Não lembro disso em anos e anos de cinemania. Por outro lado, despedi-me de 2008 com o abacaxi "Glória ao Cineasta"de K. Kitano, e entrei 2009 com "Feliz Natal" de Selton Mello, mais uma estréia de diretor que quer mostrar serviço, ou melhor, demonstrar genialidade.
A gente aprende estudando linguagem cinematográfica que os planos próximos servem para aproximar o espectador do que está na tela. Obvio. Esse tipo de plano funciona melhor na TV, onde a tela pequena não deixa espaços para a visão. Mas usá-lo em enquadramento anamórfico, ou como se conhece "cinemascope", é um desafio inoportuno. É assim que Darlene Gloria, esforçando-se no papel de uma matrona alcoólica, deixa que se veja só a sua maquilagem, a pintura dos cílios, o suor, as rugas, os olhos azuis. E a fotografia escura, desprezando os spots propositadamente a porfia por um realismo, encobre muito da zanga de familiares que recebem Leonardo Lacerda, um filho nada pródigo que resolve regressar ao lar durante as festas de fim de ano.
A pesada introdução de imagens feias, a postura de tipos destroçados, o mau humor quase geral, é coroada com o suicídio de uma criança. Fecha-se uma cortina para que se elogie o trabalho do diretor-roteirista,. Permita-me divergir. Achei o filme um saco. E o tema um replay do mau humor que cerca grande parte da produção brasileira em cinema atual.
Pode-se dissertar sobre família pouco família com ironia do tipo que Mario Monicelli colocou em "Parente, Serpente". Castiga-se mais. No "Feliz Natal" de Mello resta o desencanto e a vontade de deixar a sala de projeção antes do fim.
Escrito por Pedro Veriano às 16h40
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