Minhas Histórias
Desde criança invento histórias com a rapidez de um raio. O “jardim da infância” a professora, uma nazista de antes da 2ª.Guerra, pedia-me para “entreter”os colegas com as minhas invencionices. Queria muito lembrar do que eu contava, mas essas tramas desaparecem como aparecem, valendo como um pisca-pisca dos neurônios. Como o cinema está enveredando por algumas das idéias que me surgiam, escrevi muitas no computador. E resumo algumas no meu blog para algum aventureiro passar adiante de uma câmera. Ou eu mesmo na minha incipiente linguagem de cineasta amador. Há “Dias de Sorte”(fiz até a música-tema), um jogador que se encontrava com a sorte dele materializada numa linda mulher. Ele se apaixona por ela, mas como se diz que feliz nos amores é ser infeliz no jogo a coisa fica entre o prazer de jogar e o prazer de amar. “A Casa do Sol” é bem simples: um menino índio (ou caboclo) pergunta à mãe para onde vai o sol ao anoitecer. A mãe diz que ele vai para a sua casa, alem do rio. Um dia ela não acha o menino na oca, ou barraco. Desesperada, vai à praia. Passa horas na praia pensando que o moleque se afogou. Um dia depois ela vê ao longe uma canoa chegando. É o garoto. Recebe-o às tapas quando ele diz que foi visitar o sol. Mas as mãos estavam queimadas, fazendo refletir sobre a mentira. “Larene” é uma espécie de Peter Pan de saias. Menino amazônida ganha uma companhia para as brincadeiras quando alguém deixa a garota um pouco mais velha do que ele em sua casa. Com o passar do tempo, ele e os colegas crescem mas a menina não. Ele vai para a cidade estudar, passa para a universidade e no dia da formatura lembra que Larene, o nome da amiguinha, tinha sumido sem que a família explicasse para onde ela foi. Numa viagem de carro pela região, observa uma queimada e vê na fumaça o rosto de Larene. Seria a sua infância ou a sua terra que mudou. E há muito mais. Nos anos 70 eu mantinha o Rádio Programa Eldorado, gravação de novelas que escrevia e produzia com colegas. Fazia de tudo e recordo de alguma coisa. Como era um programa novo por semana a bagagem, infelizmente, se perdeu por mais de 50%. Alguma coisa eu filmei e quero filmar. Idéias devem ser comunicativas e não morrer com a gente. Hoje penso assim. Pena que ontem não pensava.
Escrito por Pedro Veriano às 12h15
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MÚSICA POLITICA
Os centenários de Roberto Martins e Carmen Miranda atiçaram a minha lembrança chegando ao tempo em que eu passava uma hora da noite, em casa, embalando numa rede, ouvindo vitrola e depois eletrola (dos discos de 78 rotações aos de vinil chamados “long play”). Nesse tempo os gigantes da voz já estavam vivendo as suas últimas fases (Francisco Alves, Orlando Silva,.Carlos Galhardo,até mesmo Silvio Caldas e o mais jovem Nelson Gonçalves). Depois da 2ª,Guerra Mundial ouvia-se conjuntos vocais (“Anjos do Inferno”, “4 Ases e 1 Coringa”, “Vocalistas Tropicais”) e a invasão mexicana, com os boleros que alimentariam os romances dos anos 50. Mas o que me passou pela cabeça foram composições com temas políticos, não necessariamente partidários. Rodrigues fez dois clássicos do gênero: “O Cordão dos Puxa-sacos”(1946), de parceria com Eratóstenes Frazão e “O Pedreiro Valdemar”(1949) com Wilson Batista. Ambos marchas de carnaval.O primeiro exemplo, tocando na volta dos partidos políticos depois do Estado Novo ditatorial, chegando o governo de Eurico Gaspar Dutra, citava: “...eu sou do bloco mas não pego na chaleira;/lá vem o cordão dos puxa-sacos/dando viva aos seus maiorais,/quem está na frente é passado pra trás/ e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”. E na segunda estrofe espinafrava: “Vossa excelência/ vossa eminência / quanta reverencia nos cordões eleitorais, / mas se o doutor cai do galho e vai ao chão/ a turma toda elevoui de opinião/ e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais”. Com “O Pedreiro Valdemar” tocava na ferida da classe menor favorecida encerrando: “..o Valdemar que é mestre no oficio/ constrói um edifício e depois não pode entrar”. É claro que havia ufanismo, e clássicos nacionalistas marcaram época como “O Bonde de S. Januário”(1941) de Wilson Batista e Ataulfo Alves, exaltação do trabalhador em versos como : “Quem trabalha é quem tem razão,/eu digo e não tenho medo de errar,/ o bonde de S. Januário ganha mais um operário/sou eu que vou trabalhar”(espécie de resposta aos sambas que exaltavam a malandragem), “Onde o Céu Azul é Mais Azul”!(1941) de Alcir Pires Vermelho, Alberto Ribeiro e Braguinha, e “Minha Terra”(1946) de Waldemar Henrique, este último tido como uma das músicas preferidas do segundo presidente militar, Arthur da Costa e Silva. Por outro lado a chaga social da favela, no exemplo carioca, era tratado romanticamente em “Barracão”(1953) de Luis Antonio e Oldemar Guimarães (“...barracão de zinco /tradição do meu país,/barracão de zinco,/pobretão/ infeliz”), ganhando uma resposta que dizia: “...barracão de zinco/ninguém vai morar,/se Deus quiser barracão há de acabar”. E em seguida: “...Deus quando fez o mundo,/não criou o vagabundo/ fala Deus do Céu se não é verdade!” Mas se a MPB exaltava as coisas, como o Rio de Janeiro na marcha “Cidade Maravilhosa”(1934) de André Filho, de vez em quando aparecia uma critica, especialmente durante o carnaval (“Maria Candelária/ é alta funcionária /saltou de pára-quedas /caiu na letra OOOOO..” de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti em 1952), alfinetada nos empregos arranjados por padrinhos políticos. O que me faz lembrar os carnavais associados diretamente a governantes, como “Retrato de Velho”(1951) de Haroldo Lobo e Marino Pinto para saudar a volta ao poder de Getulio Vargas, eleito em 1950 depois de ter passado 15 anos como ditador, ou criticas diretas como “Eu vou /eu vou /está na hora de fugir /não quero ver o bode que vai dar quando eu sair.” E na segunda estrofe: “Com a cara e a coragem/ eu vou eu vou/ pra Ilha do Bananal,/ acho que eu levo vantagem:/ a meta agora é carnaval”(alusão ao governo de Juscelino Kubistchek e suas metas, incluindo a prometida inclusão de Bananal). Por sinal que os políticos sempre ganharam samba (ou marcha). Quando Washington Luis foi deposto cantaram: “Doutor barbado foi-se embora, deu o fora”. E um refrão: “Não volta mais/ não volta mais”. Não sei do que se cantou no império, mas poucos mandatários republicanos escaparam dos compositores. Getúlio Vargas foi menos atacado por medo da censura do Departamento de Imprensa e Propaganda. Mas saíram muitas letras espúrias de marchas populares como a que pegou o ritmo de “Pirata da Perna de Pau” (“Eu sou o Getúlio já fui ditador/ já fui trapaceiro/ já fui roubador/ meti minhas papas no trabalhador/ com o voto dos trouxas sou senador...”). Engano seria Jânio Quadros com “O Homem da Vassoura”, esperança de um governo honesto, a mesma que se daria a Fernando Collor, a provar que nem sempre a letra casa com a música. Durante a guerra mundial foi uma festa: “Quem é que tem um cabelinho na testa/ e um bigodinho que parece mosca/ só cumprimenta levantando o braço/ ê ê ê palhaço”. Ou até mesmo um atestado da Política da Boa Vizinhança que trouxe ao Brasil de Walt Disney a Orson Welles (sem falar na visita de Franklin Roosevelt pedindo que a gente entrasse na luta contra Hitler, antes “persona grata” de Vargas): “Alô Tio Sam alô/ dizem que você está pintando o sete, /se precisar de mim/ mande chamar que eu vou,/vou nem que chova canivete,/ alô Tio Sam alô/ eu também quero provar a sua sopa de espaguete”(menção à campanha na Itália de Mussolini). A entrada do Brasil no bloco aliado contra o Eixo (ROBERTO ou seja: Roma, Berlim, Tóquio) deu dois filmes de carnaval: “Samba em Berlim”(1943) e “Berlim Na Batucada”(1944) ambos dirigidos por Luiz(Lulu) de Barros, o primeiro com Mesquitinha encabeçando o elenco e o segundo com Procópio Ferreira. Nesses filmes estava a “fina flor” do rádio,disco e teatro, com a colaboração direta de compositores como Herivelto Martins. Minha lembrança segue o ritmo até a entrada do rock’roll na dança. Hoje não se ouve mais, pelo menos com freqüência, as marchas e sambas satíricos que se cantavam no carnaval. Por sinal que o carnaval se transformou em atração turística, reduzindo os blocos independentes, a festa de rua com os seus mascarados e “batalhas de confeti”. Apesar da política dar muito motivo para compositores, pouco de canta de mazelas modernas, limitando-se à exaltação nas marchas-rancho das grandes sociedades que desfilam como em passarelas. Não é que o brasileiro tenha ficado mais sério ou perdido a verve humorística: é que o cenário mudou para um outro plano de contestação.
Escrito por Pedro Veriano às 12h02
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Fim de um Tempo
Havia uma foto no escritório do Cinema 1 em que apareciam pessoas ligadas ao projeto de 2 salas de exibições e que naquele instante assistiam a cerimônia de colocação da pedra fundamental dessas salas. Podem-se ver o dono do espaço, Alexandrino Moreira, sua esposa Lourdes Moreira Carvalho, os jornalistas Edwaldo Martins, “Mano”Flores, e Rafael Costa, o advogado José Augusto Affonso II (seria juiz do trabalho anos depois), o engenheiro Gelson Silva, o pai dele, Ofir, o cineasta Januário Guedes, e os amigos dos Moreira e críticos de cinema Luzia Miranda Álvares e Pedro Veriano. Do grupo, só restam os três últimos. A maioria está vendo as estrelas mais de perto. Como os cinemas que nasciam. Não é só nos discursos de presidentes que se diz que “o mundo mudou”. Ontem, cinema era disposto em filas de poltronas quase na horizontal, com os espectadores rezando para que nenhum “gigante” sentasse na sua frente. Hoje o modelo “stadium” põe uma fila em cada degrau de escada. Ontem, o som era mono ou estéreo, percebendo-se mais os agudos na medida em que os operadores que faziam tudo mecanicamente. O “dolby” com suas vertentes para saída de som em caixas laterais exigiu mais dos técnicos e esses culparam a flutuação de energia para dissonâncias como o aumento do som grave a difícil percepção de detalhes. Ontem se podia entrar numa sala pelo meio de um filme e ficar para ver a outra sessão. Hoje os “borderôs” (relatórios do movimento financeiro das casas) são feitos pela Internet, a aferição de ingressos através de códigos de barras, não se podendo dividir público de uma sessão para outra. Ontem era possível ir a uma sessão tarde da noite e sair fagueiro para casa a pé, de ônibus ou de carro particular. Hoje o medo de assalto impede muita gente de fazer programas noturnos de longo alcance. Ontem as distribuidoras de filmes acatavam os exibidores que programavam títulos, datas e horários. Hoje, se um filme está fazendo uma bilheteria compatível com a média estipulada pelo distribuidor ele não pode ser retirado do cartaz. E vice-versa: se um bom filme obteve fraca receptividade na primeira semana de exibições não se tenta uma segunda mesmo sabendo que pode ser descoberto pelo público. O mundo realmente mudou. A própria industria hoje elimina certos limites entre o que se chamava “comercial” e “artístico”. O nome “cinema de arte” acabou na prática (só os exibidores ainda o consideram). Quem fazia cinema experimental, como, por exemplo, o alemão Werner Herzog, hoje faz trabalhos versáteis como “ O Sobrevivente”. E filmes antes considerados herméticos, hoje são considerados ingênuos. Belém dos anos 1970 abrigava 4 empresas exibidoras: Severiano Ribeiro, Livio Bruni (que adquiriu a Cardoso & Lopes), Ópera e Cinema de Arte do Pará Ltda. Em 2009 só existem Ópera e Moviecom, este último com sede no sudeste do país. E o gosto do público é que não mudou tanto. Comédias românticas e aventuras de grande porte de produção ainda atraem. Temas densos são preteridos. A idéia de “diversão” permanece. Com o velho argumento de que “já basta a vida ser difícil para se pensar nisso no escurinho de um cinema”.Argumento que muda um pouco com a juventude mas não desvia gêneros: importa o que seja “legal” (cool). Tendo por isso qualquer ritmo (a música influi) que “badale”, que empolgue. E amanhã? Bem, amanhã é outro dia...(Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 11h03
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