O Cinema das MInorias
A gente aprende na escola que as leis da mecânica chamam-se cinemática, estática e dinâmica. Cinemática trata do movimento. Louis e Auguste Lumiére, franceses que tinham uma industria ligada à emulsão para fotografia, inventaram um aparelho que projetava imagens em movimento e deram a ele o nome de “cinematographo”, ou seja, grafia da cinemática. Daí se definir cinema como “a arte das imagens em movimento”. Por isso é que se pergunta se os filmes demasiadamente parados, com seqüências compostas de planos longos e vastos (de médios e grandes) é mesmo cinema. Invariavelmente são filmes considerados “chatos”. O caso dos dirigidos pelo russo Aleksandr Sokurov, dois deles programados pelos críticos locais: “O Sol” (2005) e “Alexandra”(2007). No primeiro caso, que eu vi, o episódio histórico do papel do imperador japonês na hora da rendição do Japão, ou seja, o fecho da 2ª,Guerra Mundial, é tratado como um cerimonial. A câmera é sempre fixa, o espaço varia da sala do imperador no seu palácio ao “bunker” para onde o levam com medo de bombardeios (com um ligeiro intervalo em um jardim), tudo isso esvaziando emocionalmente o enfoque do chefe de estado e deus, criado com mimos como uma criança quando vive a sua hora critica e é desafiado a enfrentar uma realidade dolorosa. Mas apesar desses entraves de estilo, ou de desvios da linha original da cinematografia, é importante notar que o processo de contar os fatos, ou analisá-los, procede dentro de sua opção por maior densidade. Há momentos brilhantes. Em um deles, Hirohito, o imperador, renuncia a sua condição divina e recebe a imperatriz de quem se havia separado por razão da guerra a alguns dias. Ele conta a ela a sua opção e ela pede que lhe ajude a tirar o chapéu da cabeça, preso por grampos nos cabelos. Esta operação parece complicada, mas, ao sair o chapéu, marido e mulher se abraçam. É obvia a metáfora de que ela tirou a coroa. Como o “filho do Sol”, no preceito religioso alimentado pela cultura milenar, olha da janela envidraçada a imagem que parece ser da lua. Seria mesmo o astro que o sol ilumina ou o próprio sol esvoaçado? Toda a fotografia do filme é embaçada, e com a projeção digital que diminui sensivelmente a luminosidade cabe com relevo a idéia de que a luz do homem-deus está desaparecendo. Também no jantar com o general McArthur, o militar americano que poupou Hirohito da vergonha que seria a sua prisão, o rosto do ianque é sempre encoberto pela sombra. Ele não teria como, mesmo na situação de vencedor da guerra, se ombrear em luminosidade com o descendente do astro-rei. Para ver “O Sol” como outros filmes de Sokurov, é preciso predispor o espírito para vislumbrar o que está além da cinemática, colhendo frutos da pintura, arte que o diretor abraçou antes de fazer filmes. A mesma técnica de mostrar sem detalhes explicativos é a de Alain Renais em “O Ano Passado em Mariembad”(1962). Eu cheguei a conversar com o roteirista do filme, o escritor e também cineasta Alain Robbe-Grillet. Ele disse que o seu roteiro não foi filmado “textualmente”, salvando o diretor de ser considerado apenas um ilustrador. Mas desta vez a possível monotonia não deriva da estática. Muitos movimentos de câmera tentam dizer que um casal que se vê num hotel, no ano da ação, já se viu antes no mesmo espaço. Se ele ou ela duvida, cabe a questão do tempo como dimensão como cabe a questão da memória. Quem ama esquece depressa o seu amor? Ou o tempo atraiçoa os amantes jogando-os de per si em outra cena da vida? Resnais faz o reforço poético da investigação filosófica (não sobra nada para a ciencia de Stephen Hawkins). Para o público pode ser um relato confuso. Mas é só aprender a pensar. Quando você lê um livro nem sempre conta o que leu da mesma forma que outro leitor. A subjetividade é parte de um jogo. E só os grandes artistas sabem jogar. (Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 09h46
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A Permanente Suspeita
Hithcock veio da Inglaterra a convite do produtor David O. Selznick. O diretor consagrado em seu país pensara alto com a chance de trabalhar com, ou para, o homem que produziu “...E O Vento Levou” e comandava estúdios como a RKO. Mas logo se decepcionou. “Rebeca”, o primeiro filme, sofreu o despotismo de Selznick. Mas foi em “Suspeita”, o filme seguinte, que a coisa engrossou. Para se ter uma idéia, o final do filme imaginado por Hitchcock foi radicalmente mudado. O cineasta inglês fecharia a ação com o plano de uma carta caindo na caixa do correio onde a futura vitima do assassino traiçoeiro (tipo encarnado por Cary Grant) denunciava o crime. Selznick preferiu o que ficou: Cary dirigindo um carro conversível pela borda de um abismo com Joan Fontaine ao lado. Em dado momento a porta do carro, do lado de Joan, abre-se e ela tende a cair. Grant estende a mão. Há um close dessa mão. Empurrará a mulher? Na verdade a segura puxa-a para dentro do veiculo e sorri. Um “happy end” que não extingue a suspeita – pelo contrário, a endossa e faz prosseguir. O que ficou melhor. O capricho de Hitchcock chegou ao ponto da cena em que Grant leva um copo de leite para a esposa(Fontaine), acamada, colocar uma lâmpada dentro do copo para realçar a luz branca. Em contraste, a sala, a escada por onde Grant sobe, tudo é escuro e entrecortado com sombras das grades que existem nas janelas. O efeito é claustrofóbico. Isto não foi tocado. “Suspeita” também é o filme em que o diretor não aparece. Sabe-se que Alfred Hitchcock sempre surgia em algum plano de seus filmes feitos em Hollywood. Mas a norma só apareceu depois de “Correspondente Estrangeiro”, o filme a seguir. Com um rigor estético incomum. “Suspeita” está entre os melhores trabalhos do “mestre do suspense” em qualquer fase de sua carreira.(PV)
Escrito por Pedro Veriano às 09h44
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Todas as Telas
Talvez “Eu Odeio o Dia dos Namorados” tenha sido o pior filme que eu vi este ano, mesmo incluindo o DVD. A atriz & diretora Nia Vardalos errou o titulo: o que se odeia é o próprio trabalho dela. Se é que se pode chamar de trabalho. A Sessão Cult no Libero contou com “Frankenstein” de James Whale. O diretor é aquele personagem que Ian McKellen interpretou em “Deuses e Monstros” de Bill Condon: um homossexual atormentado que acabou morto em sua piscina pensando-se que mergulhou para fora da vida por vontade própria. Whale era uma pessoa inteligente que foi além do propósito do produtor Carl Leammle Jr ao abordar parcialmente o livro de Mary Shelley. Foi proveitoso o debate que seguiu a projeção. Por sinal que o filme lembra-me o amigo Marcelino Silva, incentivador do Cine Clube APCC nos primeiros anos. Marcelino amava o cinema e ao ficar cego soube resignar-se.”Frankenstein” de 1931 era o seu favorito e à sua memória eu dediquei a minha parte na programação. Na 2ª,Feira , outro clássico de cineclube: “Gunga Din” de George Stevens (1939). Foi sucesso de público por aqui, nos finados cinemas Moderno e Independência. Deixou saudosos fãs. Cary Grant, Douglas Fairbanks Jr e Victor MacLaglen fazem 3 soldados ingleses em campanha colonialista na Índia. Sam Jaffe, um ano depois de fazer o Lama de Shangri-la no “Horizonte Perdido” de James Hilton via Frank Capra é o corneteiro heróico, um indiano que se deixa matar pela gloria do exercito inglês. Gandhi não teria gostado da história inspirada num poema de Kiplyng. Mas o filme é um dínamo e tem a graça que não se via no semelhante “Beau Geste”. Penso que Stevens, na hora, lembrou-se de quando dirigia comédias do Gordo e o Magro. Grant está impagável quando entra num templo cheio de fanáticos assoviando. O desrespeito ganha o tom de comédia. Hoje isto é politicamente incorreto. Ontem era o sal de uma aventura. No DVD eu continuei rindo com “Um Simples Assassinato” de Lloyd Bacon. O roteiro é a cara de Damon Runyon, uma espécie de Nelson Rodrigues nova-iorquino em ação nos anos 20/30. Lembram-se de “Eles e Elas”(Guys and Dolls) ? E de “Dama por um Dia?” Filmes que saíram das historias de Runyon sobre a nata da bandidagem na Nova York da fase Capone & Dillinger .Neste exemplar de 1938 Edward G. Robinson perde fregueses com o fim da “lei seca” e quer impor a sua cerveja amarga no mercado legal. Fica arruinado, mas um golpe de sorte o auxilia. E no golpe uma série de coincidências hilárias dá um toque diferente ao chamado “filme de gangster”. O riso também chegou ao ver “A Vizinha do Lado”(Portugal,1945) mas, desta vez, por conta da analogia com as nossas chanchadas. A história do rapaz da aldeia que vai para Lisboa estudar medicina, mas acaba se metendo em teatro, é a cara do tipo que Cyll Farney interpretou em “De Vento em Popa”(1957). Até os romances se aproximam, com diferença apenas de endereço. O filme português foi dirigido por Antonio Lopes Ribeiro, o cineasta preferido do ditador Oliveira Salazar. Na época os cinemas de Portugal e Espanha se limitavam a “divertir” as massas. Os espanhóis eram piores com pragas como Joselito e Marisol. Na chanchada lusa pelo menos há uma certa malicia que envolve velhos conquistadores, vedetes geniosas e mocinhos mentirosos, tudo no liquidificador da ingenuidade. E revi “As Cartas de Madeleine” de David Lean, que por aqui se chamou também “O Grito da Carne”. Na estréia meteram o pau. O próprio Lean não gostou. Hoje é de aplaudir, Ann Todd, na época mulher do diretor, faz Madeleine Smith, personagem real de um julgamento por assassinato. Ela teria envenenado o amante. Mas foi absolvida por falta de provas. Seria o crime perfeito ou uma coincidência dramática. Ann, no fim, encara a objetiva. Quem quiser julgá-la que se apronte. E até a casa da verdadeira Madeleine em Glasgow foi filmada. Exemplar da melhor fase da distribuidora J,Arthur Rank. No Olympia um programa com filmes de Alain Resnais. O diretor de “Hiroshima Meu Amor” e da charada “O Ano Passado em Mariembad” é sempre uma curiosidade. Semana passada eu vi em DVD o seu “A Vida é um Romance”(1983). Nada mais chato. O roteiro de Jean Grualt, ótimo em “Meu Tio da América” e fantasmagórico em “O Quarto Verde” (este de Truffaut), focaliza um castelo e três tempos da vida do prédio, correndo as duas guerras mundiais e acabando como uma escola. Claro que as épocas se misturam sem avisos prévios, mas nada de interessante pode se ver no tempo e no espaço. Personagens diversas transitam como se brincassem de cabra-cega. Naturalmente tudo quer dizer muito. Mas não é sempre que se arranja paciência para descobrir esse muito.No “Mariembad” escrito por Alain Robbe-Grillet (a quem conheci pessoalmente), há pistas. O tempo é um alicerce para um romance que morreu no ovo. Vale dizer “a volta dos que não foram”. Mas no castelo de Grualt só resta a imagem de Fanny Ardant como o amor perdido do nobre construtor Rugero Raimondi. Um close dele franzindo as sobrancelhas é o retrato do espectador que não dormiu durante a exibição do filme. Mas eu posso estar enganado e ter adquirido o vírus da impaciência que atingiu o amigo Maiolino Miranda (ele já não suporta filme longo). Afinal a gente vai compreendendo na pratica que “le temp est d’argent”. Isto não quer dizer que os melhores filmes já foram feitos. A exigência é que se torna um fiscal da memória.(Pedro Veriano)
Escrito por Pedro Veriano às 10h04
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