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Blog do Veriano
 

Crônicas



Viajando no Tempo

 

            Em criança eu não só lia nas histórias de Lobato(Monteiro) como ouvia dos mais velhos um final drástico de narrativas: “-Entrou por uma porta, saiu por outra, e quem quiser que conte outra”. Era um modo de despachar o leitor ou ouvinte. A cara da Emilia de Rabicó, mas certamente uma sentença de muito antes da boneca de pano: o ponto final das contadoras, sábias iletradas que não queriam perder tempo em continuações e/ou explicações.

            O “Buraco de Minhoca” parece o correspondente astronômico dessas fugas de assunto. Os cientistas acham que se você conseguisse entrar num buraco negro, poderia sair em outro, numa galáxia distante, e com isso viajar no tempo – já que nesse intervalo de espaço a dimensão tempo existiria.

            Infelizmente os escritores de ficção-cientifica, de um modo geral, são muito apressados para tratar de minhocas tão distantes. Preferem muito mais encher de outras minhocas as cabeças de seus leitores. J. Mackye Gruber e Erin Bress, autores de “O Efeito Borboleta”, pensaram numa viagem pelo tempo através da materialização da memória, ou seja, um fato pensado passava a ser um fenômeno físico e, como tal, a pessoa iría para o passado desde que pensasse nisso. Esses autores, que chegaram a dirigir um filme muito curioso sobre o assunto, trataram do “paradoxo temporal” de forma confusa, mesmo iniciando um acerto de ponteiros quando, pela primeira vez, o principal personagem vê-se aquém de sua realidade. Quando eles dissertam sobre a realidade paralela que o herói cria quando mexe em fatos passados, eles começam mudando o presente, como seria de se esperar já que uma realidade opôs-se à outra. Mas há “cochilos”. A base dos autores é o titulo da trama, inspirado na Teoria do Caos: o bater das asas de uma borboleta na América do Norte gera uma tempestade na Ásia.

            Mais curioso é o livro “A Patrulha do Tempo” que deu margem a um episódio da série de TV “Além da Imaginação”(Twilight Zone) a cargo de Richard Matheson.

Trata de uma expedição ao passado que tenta evitar a concepção de Hitler. Claro que não dá certo. Mas todas essas histórias desprezam o “Buraco de Minhoca”. O melhor nesse canto da sci-fi ainda está com Arthur C. Clarke numa licença física quando descreve os astronautas de seu “A Sentinela”(futuro “2001, Uma Odisséia no Espaço”) entrando numa espécie de “rachadura” do espaço (ou um “mini” buraco negro) a caminho de Jupiter. Aí são transportados para uma trégua temporal, onde  ajudam a concepção de um feto inspirado no super-homem nietzscheano (não à toa, no filme, entrar “Also Sprach Zarathustra”de Richard Strauss). Essa concepção evoca um efeito poético para um pulo maior na evolução humana que a história trata desde quando um gorila toca no monólito plantado na Terra por deuses não cultuados (seriam, segundo Clarke, ets infinitamente superiores aos humanos).

            O tema é vasto.Como está em cartaz um filme chamado “Déja Vu”, uma derivada da viagem no tempo mais para H. G. Wells pretendo continuar pescando com esse tipo de minhoca..



Escrito por Pedro Veriano às 15h09
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`Medo e Obsessão

 

 

            Dois filmes lançados agora em DVD mostram como o norte-americano pirou com essa história de terrorismo.. Em “Medo e Obsessão”(Land of Plenty), o cineasta alemão Win Wenders (“Asas do Desejo”, “Paris,Texas”) focaliza um ex-mariner de passagem pelo Vietnam,Paul (John Diehi), observando de uma caminhonete equipada com modernos sistemas de imagem e som, árabes suspeitos nas ruas de Los Angeles. Quando a sua sobrinha Lana (Michelle Wiliams), nascida em Ohio, mas criada em Tel-Aviv, chega a seu encontro, a paranóia do espião passa a virar piada. Ele descobre que uma investigação trabalhosa sobre a morte de um mendigo muçulmano, nada mais é do que um dos muitos casos de gente que morre nas ruas pelas mãos de americanos xenófobos. Longe do terreiro de Osama Bin-Laden.

            Wenders diz no bônus do DVD que essa história de “sonho americano” já era. Hoje qualquer moleque dos EUA  se desencantou dessa coisa de terra das grandes oportunidades ou de plena liberdade. O medo é o tom. Melhor, o medo é “cool”.

            O outro filme, ”Esperança e Preconceito”(Sorry,Haters) é ainda pior. Uma executiva com dor de cotovelo (o marido teria trocado ela por uma colega de escritório) pega um táxi dirigido por um muçulmano. Passa a noite correndo ruas de New York. Interessa-se pela vida do motorista, no caso a luta que ele trava para trazer um irmão médico para os EUA e proteger a cunhada e o sobrinho. Quando amanhece o dia a moça revela-se uma tirana. Não só rouba a verba que o rapaz tinha para a passagem do irmão como manda prender a parenta dele e a criança como suspeitos de terrorismo No fim das contas, atira o citado para dentro de um banco com uma bomba e o dinheiro que lhe devia.

            Com esses exemplos a propaganda negativa que o cinema está fazendo da América do Norte leva a um desvio muito sério na sua atração turística. Eu, pelo menos, não pretendo ir por lá nem como fantasma. O que se propaga é que o americano médio pós-11/09/01 desconfia, agora, até do rabo de seu cachorro quando está abanando. Paranóia mais evidente do que a do tempo da guerra fria, quando se exportava a idéia de que podia haver comunista debaixo da cama. Até por aqui (eu conheci um desses malucos).

            Win Wenders é um chato, mas é um intelectual que sabe das coisas. O colega dele  Jeff Stanzler, que fez “Esperança e Preconceito” é puto novo. Foi execrado pelos seus patrícios. Perguntaram que diabos ele viu no arquétipo da maluquinha que justifica o titulo original do filme: “Desculpem, inimigos”.O rapaz parece ter sido vacinado contra a patriotada que os republicanos de Bush entronizaram. Um estranho no ninho.. Enquanto esses críticos existirem, tudo menos mal. O diabo é que eles não vendem suas idéias e mercadorias. O que dá dinheiro em cinema é “O Motoqueiro Fantasma”,um Fausto americano que faz literalmente o diabo em sua motocicleta. Quem sabe numa próxima aventura procurará um vilão paquistanês, libanês, ou o próprio “Ladrão Bagdá”.

           

           



Escrito por Pedro Veriano às 14h07
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Oscar 2007

 

 

OSCAR 2007

 

            Estou mesmo ficando velho. Deu 2 da matina e “preguei” diante da TV assistindo a festa de entrega dos Oscar. Antes eu engolia até o fim a maratona americana, com aqueles apresentadores contando piadas que os seus conterrâneos entendem (ou riem). Lembro de uma dessas sessões que acabou às 3. E lá estava o bestalhão olhando feito coruja. Hoje parodiei Roy Sheyder no filme “All That Jazz” de Bob Fosse: “- Bye bye Oscar, bye bye breguinesse”.

            O que vi não memorizei. Exceto a secção “the end”, mesmo assim fajuta. E a homenagem ao maestro Ennio Morricone.Sem ele não se assoviava em “O Bom, o Mau e o Feio” (ou “3 Homens em Conflito”).Antes de ser o cineasta que hoje é, Clint Eastwood dançava no ritmo desse mestre. Foi quem o recepcionou dando-lhe o prêmio honorário da noite.

            “Os Infiltrados” não é bom. Tem ritmo, é bem dirigido, mas conta o que já se contou e recheia de violência o que escapou de se contar. O diretor Martin Scorsese fez muito melhor em “Alice não Mora mais Aqui” e outros tantos filmes de antes. Também não é para guardar “Babel”, como “A Rainha” não é nada sem Helen Mirren . O que eu não vi deve ser melhor: “Cartas de Iwo Jima”. Enfim, o Oscar continua sendo um produto industrial coerente. Quem pensou que ele premiaria “Cidadão Kane” morreu de otimismo. E não foi por causa de Hearst, o biografado sacanamente pelo mui amigo dele Herman Mankiewicz. Foi porque o filme inovou linguagem, arranhou poesia, advogou que ninguém sabe de ninguém. Isso está além dos estúdios de Hollywood, hoje subsidiários de grandes corporações.

            Com a Internet é besteira deixar de dormir vendo a entrega dos Oscar. Afinal que é que a gente tem a ver com isso? Tietagem? Modismo? Nostalgia?

            Pira paz.



Escrito por Pedro Veriano às 15h23
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Coincidências do Outro Mundo

 

 

 

            “O Homem do Planeta X”(The Man from Planet X) de Edgar G.Ulmer com roteiro original de Audrey Wisberg e Jack Pollexfen é de 1951; “Veio do Espaço”(It Come from Outer Space) de Jack Arnold com base numa historia de Ray Bradbury é de 1952; “Vampiros de Almas”(Invasion of Body Snatchers) de Don Siegel com base num conto de Jack Finney é de 1956 e “Casei-me com um Monstro”(I Married a Monster from Outer Space) de Gene Fowle Jr escrito por Louis Vittes é de 1958. Todos esses filmes tratam de extraterrestres que tiram cópias de seres humanos. No primeiro exemplo as pessoas ficam como que armazenadas no covil do et, mas são liberadas sem problemas físicos; no segundo, a mesma coisa; no terceiro, um exemplo clássico, as cópias querem dominar o mundo e caracterizam-se pela ausência de emoções.Não se sabe que diabos acontece com as matrizes. No último exemplo, o pessoal da Terra também é posto em hibernação até a sessão acabar.

            A ficção-cientifica dos anos 50 usou e abusou de uma formula. Seria influencia do maccarthismo? Na época da caça às bruxas, quando o americano médio, na onda do senador Joe McCarthy, via comunista debaixo da cama, cabia a metáfora de que os comunas estavam moldando gente para formar uma sociedade igualitária. Mas era um pecado, por exemplo, Kevin McCarthy levar a bela Dana Winter para a cama sem que ela ao menos gemesse. E que diabos substituir Tom Tyler por um robô de carne na noite de núpcias? Ele que já era isso, como ator? E nem se fala no cabeçudo do planeta Dez, como eu ouvi uma normalista dizer à colega lendo a marquise do cinema Olímpia, que emitia um som semelhante ao do então em moda teremin, como quem dizia ao terráqueos: “-Gente, cheguei!”

            È duro crer que Ray Bradbury tenha plagiado Audrey Wisberg e Jack Pollexfen. E que os outros fizessem escadinha na copiagem. Essa “transmissão de pensamento” lembra apenas a tese de que em cinema “nada se perde, nada se cria, pouco se transforma”.

           



Escrito por Pedro Veriano às 16h47
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Chamas que Não Se Apagam

 

 

 

            Nos últimos anos da década de 50 a moda em cinema,nesta Belém do Grão, era os melodramas da Universal International dirigidos pelo dinamarquês Douglas Sirk(1900-1987). Lembro de que organizei um debate no Colégio Santa Rosa, então só feminino, exibindo o filme “Amanhã Será Tarde Demais”(Domani e Troppo Tardi) de Leonide Moguy. Comigo foi Orlando Costa, ex-dirigente de cine-clube mais tarde ministro do TST. No fim da sessão houve um debate e as alunas em coro elogiaram os filmes de Sirk, especialmente “Sublime Obsessão”(Magnificent Obsession) em detrimento ao trabalho de Moguy  premiado em Cannes. Eu, particularmente, detestava isso. Mas no meio dos chorosos títulos em que Rock Hudson ensinava como não se deve ser ator, gostava muito de “Chamas que Não se Apagam” (There’s Allways Tomorrow), exemplar em preto e branco feito em 1956.

            Revi e confirmei o gosto. O filme chega a ser genial em certos momentos. Um ficou: Fred McMurray faz um industrial de brinquedos que se sente (e é) desprezado pelos familiares (mulher/|Joan Bennett e filhos) e encontra uma colega que não vê há 20 anos (Bárbara Stanwyck). Ela agora é modista famosa.Os dois passam horas falando do passado. Mas aos olhos dos outros é um namoro. O filho mais velho acha que o pai está pulando a cerca. Passa a detestá-lo (como se demonstrasse algum amor por ele). Quando a colega vai jantar com a família o menino encabeça uma demonstração de desprezo. Vendo que está estremecendo um lar, a modista chama o garoto, conta o que foi, é e faz, e vai embora. Na seqüência que me parece fantástica, um robô de brinquedo está sobre uma mesa e sai andando em direção à câmera. Fred está de costas perto da objetiva. O robozinho anda até cair. Nada de explicações.O plano seguinte é de um avião passando alto e o industrial olhando para ele. Dentro do aparelho, Bárbara chora. A vida continua.

            Um filme delicado que não emplacou. Ele justifica a preferência que Fassbinder tinha para com o trabalho americano de Sirk.



Escrito por Pedro Veriano às 15h46
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Poeira de Saudades

 

 

 

            Quando eu era criança ia ao cinema Poeira para ver seriado. Mas por lá eu vi “Jacaré, O Assassino do Amazonas”, uma das aberrações que estrangeiros fizeram no Pará. Lembro de uma briga do ator&caçador Frank Buck com um jacaré empalhado (depois soube que foi cortesia do museu Goeldi). A platéia gostou. Pagou para rir de si mesma. Também na mesma poeira vi “Obrigado, Doutor”, melodrama de Moacyr Fenelon em que Rodolfo Mayer matava Lourdinha Bittencourt e ia pro mato caçar outra mulher. No tempo da festa posterior ao Círio, ia muito ver o pessoal do rádio e da Praça Tiradentes, do Rio. Também era gente de chanchadas. Vi a Violeta Ferraz escandalizar os pudicos de então (anos 50) cantando “Picadura”(Pecadora). Era uma festa. Depois disso, em 1956, o festival cinemascope da Fox virou uma batalha. Para ver “Demetrius, o Gladiador” meti-me num empurrão grotesco. O porteiro avisou que ia largar uma patada em quem forçasse a entrada. Mais adiante no tempo, peguei a namorada numa quermesse e fugimos para ver “Sete Cidades de Ouro” no mesmo cinema. O que era o filme? Uai, passou filme?

            Junto do Poeira, rebatizado de Nazaré 1, havia o Iracema. Minhas matinais de domingo naquele espaço eram sagradas. Seriados como “Marte Invade a Terra” viravam assunto no colégio. Vesperais com Durango Kid empolgavam quem só exigia boas porradas – mesmo sem cair chapéus.

            O amigo já no outro mundo Wilson Corrêa, que me ensinou jornalismo na finada “Província do Pará”, era fiscal da Metro nos anos 40. Contava-me das sessões de meia-noite no Iracema. Ninguém pensava em assalto na volta para casa às 2 da matina. Belém era calma, a ponto de ladrão de galinha merecer corpo grande (letra maior) em coluna policial.

            Este ano começou sem esses cinemas. A noticia oficial é eu fecharam para reforma. Quem vai reformar? O sr.Severiano Ribeiro Neto ? Se ele ainda crê (ou se algum dia acreditou) em Belém, milagre pode acontecer. A bola de cristal que vejo espelha mais um espaço vazio, mais cinemas que foram recantos de amores, de sonhos, de expectativas, das mais variadas emoções.

            A cidade ficou apenas com 3 salas no centro. E 3 alternativas que sabe Deus como funcionarão.

            Vale a piada de um dia um garoto chegar em casa e dizer que viu um filme do tamanho de um poste. A mãe dá-lhe um tapa pela mentira. Nenhuma televisão vale um poste. Apostem nisso aí.



Escrito por Pedro Veriano às 10h35
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A Felicidade Filmada

Cinema no Natal é principalmente “A Felicidade Não Se Compra”, o filme de Frank Capra que neste dezembro faz 60 anos. Capra não realizou o filme, que por sinal marca a sua volta depois de 4 anos, tempo em que esteve filmando a 2ª.guerra mundial, para entrar nas comemorações natalinas. Acertou por tabela. Na obra de Capra não tem Papai Noel. Tem papai. É George Bailey (Stewart), o boa praça de uma pequena cidade (Bedford Falls, tão mítica quanto a Insifree de John Ford), a vida inteira sacrificando-se pelos outros, agarrado como carrapato à mulher, Mary(Donna Reed) e aos filhos (Karolyn Grimes, Larry Simms, Jimmy Hawkins e Carol Cooms). Substituindo o pai (Samuel Hinds) numa imobiliária, vê-se desde cedo alvo do usurário Henry F, Potter(Lionel Barrymore) e justamente na noite de Natal descobre um desfalque nas contas da empresa (culpa de Potter)e decide que o passo mais curto é acabar com a vida. Mas quem está no cinema sabe de seus problemas e sabe que do céu os anjos viram tudo e convocam o de sua guarda, um relojoeiro quando na passagem terrena, Clarence Odbody (Henry Travers e suas sobrancelhas brancas). Este anjo, é convidado a ver num brilhante flash-back tudo sobre o seu protegido, descendo do céu para dissuadir George de mergulhar nas águas geladas das proximidades. Os minutos restantes são modulados pelo clima de Natal. O quase suicida vê como faria falta se não tivesse nascido e todas as pessoas que aprendeu a conhecer unem-se primeiro em preces depois em mutirão financeiro para ajudá-lo. O nome do filme em português é dos raros que suplanta o original. Vejam: de “É Uma Vida Maravilhosa”(It’s a Wonderful Life) para “A Felicidade não se Compra”. Se o autor fosse Assis Valente diria que é balela, que “felicidade é um brinquedo que não tem”. Valente compôs o nosso “hino natalino” ( a marcha “Boas Festas”) e acabou sem anjo da guarda, ingerindo formicida numa rua do Rio. O filme de Capra, vindo de um cartão de festas de Philip Van Doren Stern, aposta que felicidade tem. Está na família. Como o Natal está na família. Sendo o homem um ser social mesmo que se diga um eremita declamando “o meu amigo é o meu umbigo, que quando morro, morre comigo”, ele quer alguém para responder as suas perguntas. Quer alguém mesmo que seja para brigar. Por isso o filme encerra com uma frase: ”Quem tem amigos não conhece o fracasso”..

            Eu revejo “A Felicidade Não Se Compra” todos os anos, nessa época. É a minha árvore de Natal, carregada de boas lembranças. Através dele eu desejo aos que me vêem semanalmente dessa janela, agraciado pela bondade da Luzia, todo o otimismo do cineasta, toda a magia da festa que encerra o filme, a meu ver a mais exuberante das apoteoses filmadas.  

 (Parte da coluna "Panorama" de O Liberal de 23/12/06



Escrito por Pedro Veriano às 15h57
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Bond, James Bond

 

 

BOND, JAMES BOND

 

            James (007) Bond é filho dileto da “guerra fria”. John Kennedy disse que gostava das histórias de Ian Fleming na época em que Kruschev instalava mísseis em Cuba. A guerra tendia a derreter. Não chegou a isso. Na verdade congelou e acabou como sorvete lambido por Gorbachev e Reagan. Mas o herói de Fleming persistiu. Graças a Harry Saltzman, Albert Broccoli e a United Artists. De 1961 até hoje a média foi de quase um filme bianual. Saiu caixas de DVD com toda a série. Haja grana do fã!

            “Cassino Royale” versão 2006 espelha o modo de Bond continuar no trilho. Violência acima da fantasia, menos charme do galã, menos chance ao sexo.Os produtores já se foram, a coisa é de herança, e Daniel Craig é o mais feio dos mocinhos a serviço da espionagem inglesa. Pouco sob o sol, mas o efeito financeiro espantoso quando se sabe que o herói repisa a sua invulnerabilidade há 45 anos. Só Tarzan durou tanto.

            Bem, com a visão descompromissada do novo James Bond o ano de cinema chega ao fim. Desculpem: estréia “Didi e Princesa Lili”. E um tal de “Eragon” que na língua do nosso caboclo pode ser “Eras, Gon” (ou “Égua, Gon”). O primeiro titulo recomenda-se aos masoquistas em estado de (des) graça. O segundo aos eternos bebês que juram crer em dragões como em Papai Noel. Quando estiverem mais velhos hão de crer em leões dos impostos e benesses de socialistas a quem já é rico.

            O que rendeu o ano? Fechamento do pioneiro Olympia (reabriu, mas não é a mesma coisa), fechamento dos cinemas Castanheira 1  e 2, fechamento da locadora de vídeo Cinema 4, fechamento dos cinemas 1, 2 e 3 reabertos pelo grupo Moviecom com o que possa dar dinheiro, o Brasil perdendo a Copa do Mundo, e sei lá quantas cagadas mais (eu pessoalmente perdi uma casa para um gatuno que lá entrou, escondendo-me covardemente num poleiro).

            Eu gosto de festejar entrada de ano não pelo que chega, mas pelo que sai. Este ano eu, se pudesse, ficava de porre. Mas não sou suicida. Benzo com galinho de arruda a urucubaca em agonia. Vôte cobra d’água, que realmente venha a bonança depois da tempestade.



Escrito por Pedro Veriano às 15h48
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A Nossa Cultura Importada

 

 

 

 

            Quando eu era criança ouvia os nomes em francês como provas de bom gosto. Motorista era “chauffeur”, dito chofer, cardápio era “menu”, servente era “garçon”,andar alinhado era “chique”, casa de encontros furtivos era “rendez-vous”, comédia ligeira era “vaudeville”, casas comerciais podiam se chamar “Bom Marche”, “Café Chique”, “Paris N’America”, vesperais chamava-se “matinê” e reuniões noturnas “soirée”.

            Filho de boa família tinha de arranhar um pouco a língua de Chateaubriand. Poucos anos haviam se passado do tempo da borracha, desde que o norte brasileiro nadava em ouro e tinha alcova de cetim  (como cantava Vicente Celestino) . Já não se mandava a prole estudar na Europa, mas se exigia uma postura de cavalheiro. Já espocara a 2ª.Guerra mundial, mas ainda assim os bons burgueses fechavam os olhos para a França de Vichy e cultivavam a imagem de uma Paris da virada do século (do XIX para o XX).

            Logo o cinema mudou o disco. A molecada da minha rua não perdia um episódio de seriado de aventuras e nas esquinas brincava de bandido apontando os revólveres de lata aos gritos “-Camone boi”.

            No fim dos 40 os ídolos já eram os cow-boys do cinema e os heróis mascarados dos quadrinhos. Tudo norte-americano com certeza. A gente aprendia que o Fantasma Voador era interpretado por Tom Tiler (Tom Tyler), e o espadachim de “O Cisne Negro” chamava-se Tirone Povér (Tyrone Power). Nesse tempo os cômicos Jararaca e Ratinho lançaram um disco de 78 rpm chamado “Amor Cinematográfico” e um dos trechos mais engraçados dizia a propósito de Bárbara Stanwyck: “- Que está no uísque o quê, compadre! Tem artista que só gosta de caninha. Quando eles chegaram aqui estava passando aquela fita do Jeff e todo mundo gritou “Nós queremos ver Mutt”(a propósito da dupla dos gibis Mutt e Jeff), e um sujeito gritou em resposta: “Vermute nada, o gin que é pura” (Jan Kiepura, tenor que fez o papel de galã em filmes como “Uma Noite na Opera” com os irmãos Marx).

            Nunca mais o inglês nos deixou. Hoje nas barracas de praia, na ilha do Mosqueiro, eu vejo sempre placas do tipo “Barbudo’s”, ou “Chico’s”. Yes, nós espique inglis. Os filmes de TV não são mais traduzidos. Camisas de meia são vendidas com dizeres que os donos desconhecem. Já estão trocando “legal” por “cool”. Já não se ama, se fica “in love”.

            A última piada brasileira foi a de um português que resolveu o problema do trafego aéreo colocando um semáforo nas nuvens. Mas isto já é outra coisa. Nas anedotas prosseguimos nacionalistas. Ou até xenófobos.



Escrito por Pedro Veriano às 15h56
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Natal é um Estado de Espirito

 

 

 

 

            Não concordo com os que dizem que não vale a pena festejar o Natal porque o mundo está muito violento. Os argumentos espraiam por sobre as guerras, os crimes diversos, a proliferação de drogas, os estupros, o desrespeito às leis e aos mais velhos. O preconceito, enfim,e ao que a mídia estampa como desumano e proclama nas ficções geradas com um objetivo comercial. E não concordo por dois motivos: primeiro, o mundo sempre foi violento. Em “2001, Uma Odisséia no Espaço” Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke mostraram que a primeira atitude do homem ao compreender o potencial de um osso como arma, ele ainda jovem na escalada da espécie, foi de usar este osso para matar não só animais como outros homens que desejavam a água existente nas proximidades de sua caverna. Desde esse tempo o mundo não passou sem violência. Há registro estatístico de que todos os dias, em alguma parte (ou em muitas partes)do planeta, alguém é assassinado. E não existe paz. Pode ser até uma tribo brigando com outra, mas o mundo jamais se isentou de guerras. Na Idade Média, por exemplo, além das batalhas providenciadas pelos cruzados ainda havia o “troco” de pestes que consumiam sobreviventes da saga guerreira. O Renascimento propôs a evidencia da arte, mas não evitou animosidades entre nações. Não há um período da História que não seja atacado por beligerantes em ação. A ferocidade é parte do animal, mesmo o proclamado de “sapiens”.Depois há a chance de congraçamento, Uma data para se pedir desculpas e confessar amor.

            Hoje a mídia aproxima os povos. Televisão, rádio, Internet (principalmente) excluem a privacidade das nações Nos anos 1950 George Orwell viu um mal nessa infiltração de olhar e conseqüente desnudamento do ser. O seu “1984” mostrava como o futuro da técnica abrigava os males do passado sem técnica. O mundo, no entender de Orwell, como de Huxley, de Asimov, de Clarke, e tantos outros futurólogos, seria sempre igual desde que sempre habitado pelas mesmas criaturas.

            O Natal seria um hiato do Bem. As pessoas podem até mascarar hipocrisia no festejo com base no hipotético nascimento de Cristo (que se sabe não foi em 25/12).Mas até por moda, por tradição, por ser maioria, a festa persiste. E se propaga como as férias da maldade intrínseca. A paz homeopática, mas a paz. Por isso, deve ser não só festejado como ampliado.Não pensar assim é descrer na divina energia que faz o ser humano diferente. Mesmo para o ateu, um aceno divino.

            Voto no Natal. Piegas Papai Noel, sininhos, árvore enfeitada, coisa de gringo, o que seja. É uma festa de família, de união, de boas expectativas. Se for careta, visto a máscara para um carnaval anímico. A felicidade, mesmo em pequenas doses, é a melhor ambição.



Escrito por Pedro Veriano às 09h40
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O Último Homem Mau ?

 

 

 

 

            Quando noticiou a morte do ator Jack Palance um ancora de TV disse que se trava do “último homem mau do oeste americano”. Claro que se referia ao oeste norte-americano, mais precisamente ao western ou faroeste, lenda que extrapolou os limites geográficos através do cinema.

            Mas será que todos os vilões dos filmes de bang-bang já foram atirar outras pradarias? Vale pensar desse jeito se for considerado que o gênero perdeu terreno na produção atual de Hollywood & adjacências. Não se fala, é claro, dos westerns sofisticados de hoje, citando-se no grupo “Os Imperdoáveis” (Unforgiven) de Clint Eastwood ou “Três Enterros”(Three Burials) de Tommy Lee Jones.

            Quem foi guri de freqüentar vesperais com seriados lembra dos malvados de seu tempo ? Lee Marvin foi o facínora que John Wayne matou para James Stewart se vangloriar; Lee Van Cleff foi bandido até nos bangs italianos, mas eu lembro a raia miúda, um Robert J. Wilke, um Dick Elliot, aqueles capangas de chefões impiedosos que levavam socos e nem por isso deixavam cair os seus chapéus.

            Nos velhos faroestes, especialmente os de classe C, rodados cada um em uma semana num “set” que não desmontava (servia para muitos filmes), geralmente não se matava o bandido. Muito menos saía sangue de algum ferimento. Tudo era asséptico como mandava uma censura de estúdio, colada no famoso Código Hays, o eco do puritanismo na indústria cinematográfica. Se isto não importava para a meninada que ia gritar no cinema pelo seu herói preferido, era uma coisa incômoda nos chamados “filmes de gangster”, onde se imprimia, a partir dos temas, um certo realismo. Exemplo clássico é “Heróis Esquecidos”(The Roaring Twenties) de Raoul Walsh, onde o foco era centrado nos ex-combatentes (da I Guerra) desempregados e por isso virados para fora da lei. James Cagney era o protótipo dessa fauna. Atirava sem dó em quem lhe aparecesse na frente, mas as suas balas pareciam tão minúsculas que entravam pelos poros dos antagonistas.

            O cinema era mais fantasioso, mas nunca deixou de ser fantasia. Quanto mais persegue a realidade mais se mostra vulnerável. Até por isso os vilões eram caras manjadas. Jack Palance não tinha outra para ser bonzinho. Chegou perto disso em “Bagdad Café”, onde interpretava um americano tranqüilo a servir “fraulein” Marianne Sägebrecht. O filme, aliás, mimava idéias nazistas. Mas é outro papo. Por ora fiquem com a idéia de que Palance não deve ter sido o último dos homens maus das pradarias estadunidenses. A turma toda que eu mencionei nessa mensagem já morreu. Mas com certeza esqueci de algum pistoleiro aposentado.



Escrito por Pedro Veriano às 10h28
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A Dama de Shangri-la

 

 

 

 

            Jane Wyatt morreu aos 96. Quando tinha 35 fez a garota que atraía o escritor vivido por Ronald Colman para o “horizonte perdido de Shangri-la”. No filme de Frank capra ela parecia ter 15. Não vendia a imagem “sexy” que já em 1937, o ano do filme, o cinema usava para vender estrelas como Jean Harlow ou Heddy Lamar. Era a mocinha que os bons mocinhos queriam para mãe de seus filhos. E Jane acabou se especializando em papéis de mãe. Lembro do sucesso por Belém de “Vida de Minha Vida”(Our Very Own/1950) onde ela acompanhava a adolescência das filhas Ann Blyth e Joan Evans, ambas disputando o galã das fitas de Samuel Goldwyn, Farley Granger. A canção-titulo vendeu muito e na época não havia critico ranheta para dizer que o arremedo de neo-realismo feito pelos americanos era pasteurizado (e era).

            Sven Nyvist foi outra morte sentida. Fotografou os filmes de Ingmar Bergman desde “Noites de Circo” em 1955. Basta “Gritos e Sussurros”, com aquele vermelho-útero por sobre as mocinhas que jamais se desprenderam da mãe apesar de serem pouco afetuosas para com a irmã moribunda, basta este filme para consagrar o diretor de fotografia. Mas não foi na Suécia que brilhou. Levado para os EUA fez filmes com Woody Allen, Phlip Kaufmann, Hasse Hallstrom, Norah Ephron e outros cineastas. Eu achava difícil dirigir Sven. No “makin of” de “Fanny e Alexandre”, de Bergman, via-se como ele impunha as suas imagens ao imaginário bergmaniano.

            Esses astros já estavam apagados. Mas a gente sente ao saber que não há como brilharem outra vez. Ficam os filmes. Revê-los é a alegria que dignifica o cinema, arte que vence a morte na concepção real de imagens, coisa que a literatura não possui, valendo-se sempre do imaginário de quem lê.(Pedro Veriano)



Escrito por Pedro Veriano às 15h38
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